“Mudar a forma de se pensar e dar a educação física escolar é o caminho mais eficaz para barrar o crescimento do bullying no país”, alerta coach e educador físico.

Um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgado recentemente revelou que o número de casos de bullying escolar está crescendo no Brasil.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar, em 2015, 46,6% dos 13 milhões de jovens entrevistados, entre 13 e 17 anos de escolas públicas e particulares de todas as regiões do país, disseram já ter sofrido algum tipo de bullying. Em 2012, a porcentagem era de 35,3%. A aparência física está entre os principais motivos para a prática do bullying.

Para o coach e educador físico Cristiano Parente, “a forma como hoje é tratada a aula de educação física nas escolas, competitiva e excludente, ajuda a rotular crianças e jovens que carecem de habilidade para o esporte, por exemplo. Isso faz com que, inclusive, esse jovem se afaste de vez das atividades físicas, criando um trauma pelos exercícios”, afirma.

Entre os casos mais comuns de bullying escolar envolvendo as atividades físicas, estão as crianças acima do peso tendo que correr durante a aula, com as mais magras levando clara vantagem; os mais tímidos tendo que demonstrar habilidade para interagir em e com algo que nunca haviam feito; divisão de times onde os menos habilidosos sempre são deixados por último; a permissividade e até cultura de apelidar ofensivamente em função da não aptidão física; a cultura de que em qualquer atividade física deve haver um melhor ou campeão, criando intensa competição; e a postura ausente de alguns professores, que se preocupam com a obediência às regras do jogo em detrimento à criação de um ambiente de desenvolvimento social, emocional e de respeito às individualidades.

De fato, a pesquisa do IBGE também mostrou que do universo de entrevistados, a procura por atividades físicas é baixa. Pouco mais de um terço faz alguma atividade, e um em cada quatro estudantes gostaria de emagrecer. Para reverter os dados apontados pela recente pesquisa, o coach Cristiano Parente diz ser necessária uma profunda transformação nas escolas, com a mudança na forma de se pensar e dar a aula de educação física.

“É preciso pensar a educação física de modo educacional, como acontece com as demais disciplinas. A disciplina deve fazer o estudante entender a importância e as diferentes formas de se movimentar. Para isso, deve também compreender como o corpo e o organismo funcionam e como o corpo pode ficar mais debilitado, suscetível a doenças e com formas que podem não agradar a eles mesmos na falta da prática de uma atividade física”, explica o especialista. Parente afirma que “os profissionais estudam e têm base para agir assim, embora ainda pensem na educação física apenas relacionada aos jogos competitivos, acreditando nesse velho mito de que assim se descobrem os atletas”.

Na visão do especialista, levar ao aluno essa nova forma de ensinar educação física não exige grandes materiais para aula. “Basta ao professor planejar e utilizar o universo gigantesco de conceitos e ideias da área para explicar, dar base e conhecimento para o aluno praticar, entendendo o corpo e o exercício, de modo que se sinta permanentemente estimulado a levar uma vida ativa. Mudar essa cultura é um dos desafios para os profissionais de educação física do país”.

O resultado dessa transformação, na opinião do coach Cristiano Parente, será muito além da redução de casos de bullying escolar envolvendo a aparência física. “Será a redução do número de sedentários, uma vez que, com início de vida esportiva positivo, o jovem seguirá motivado a inserir prática da atividade física em sua rotina por toda a sua vida”.

 

Fonte: Pauta Mídia
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