Nos últimos anos, os problemas oftalmológicos infantis têm trazido sérias preocupações ao setor da saúde. Pais, professores e especialistas têm acompanhado os transtornos causados por esses problemas e com eles convivido. Os especialistas buscam alternativas e ampliam, cada vez mais, o fluxo de informações a respeito do assunto.

A saúde ocular é fundamental para melhor qualidade de vida. Contribui, na vida da criança, para o desenvolvimento de potencialidades cujos resultados se fazem sentir em melhor rendimento escolar e relacionamento social adequado como reflexo de autoestima elevada. Em vários países, muitas instituições têm desenvolvido programas de prevenção da cegueira com o objetivo de reduzir o alto índice desse problema. Segundo estudos, a cegueira atinge cerca de 1,4 milhão de crianças no mundo e, no Brasil, pelo menos metade das causas da cegueira infantil podem ser evitadas.

PROBLEMAS MAIS COMUNS

Muitos pais e professores levantam questionamentos a respeito dos problemas oftalmológicos mais comuns que ocorrem com a criança. Segundo a doutora Maria Carrari, oftalmopediatra do IMO (Instituto de Moléstias Oculares) em São Paulo, já na primeira infância é possível perceber a presença de vícios de refração como miopia, hipermetropia (nome dado ao erro de focalização da imagem no olho, fazendo com que ela seja formada após a retina) e astigmatismo, que são comuns e devem ser corrigidos com o uso de óculos ou lentes de contato. O estrabismo também é frequente nesta faixa etária, além das conjuntivites infecciosas e alérgicas. As crianças, apesar de saberem expressar o que sentem, muitas vezes, não sabem que enxergam mal. Algumas delas só percebem o problema quando são alfabetizadas. Isso se deve ao fato de não enxergarem a lousa com precisão ou de sentirem dor de cabeça durante os estudos.

SINAIS DE ALERTA

Dois meses

  • Criança não reage a estímulos luminosos (não chora nem demonstra incômodo com um foco de luz)
  • Pálpebras dos olhos que só ficam fechadas ou são abertas muito raramente

Três meses

  • Bebê não levanta a cabeça nem demonstra interesse pelo ambiente à sua volta

Quatro meses

  • Olhar que converge ou diverge para os lados
  • Manchas brancas que aparecem na pupila ou na córnea (parte extrema do olho)
  • Os olhos do bebê tremem com frequência
  • Dificuldade de reconhecer a mãe
  • Sem expressão de alegria ou espanto na presença de um estranho
  • O olhar não acompanha o deslocamento de objetos coloridos

Seis meses

  • Desinteresse da criança por móbiles e enfeites do seu quarto
  • Bebê não busca objetos coloridos colocados ao alcance de suas mãos

Oito meses

  • Dificuldade de engatinhar e andar
  • Bebê esbarra frequentemente em móveis e objetos

Três anos

  • Criança assiste à televisão muito próxima à tela Seis anos
  • Dificuldade para ver o que está escrito na lousa
  • Escreve com o rosto muito próximo do caderno
  • Presença de mancha branca na córnea
  • Reflexo luminoso em um olho diferente do outro
  • Na presença da luz do sol, a criança fecha apenas um dos olhos ou movimenta só um deles
  • Repetição de palavras para identificar um objeto, sem prestar muita atenção no próprio objeto
  • Desinteresse na escola
  • Dificuldade de aprendizado
[Fonte: Instituto CEMA/FSP]

COMO PREVENIR PROBLEMAS COM A VISÃO DE SUA CRIANÇA

No intuito de proteger as crianças, os pais devem procurar detectar os sintomas apresentados por esses problemas. Crianças com dificuldades oftalmológicas apresentam vários sintomas. Segundo a especialista do IMO, os pais devem prestar atenção a alguns sinais que, geralmente, aparecem antes da alfabetização. Não se deve subestimar a queixa da criança. Se ela é portadora de rinite alérgica, provavelmente apresente comprometimento do globo ocular, com pálpebras inchadas, coceira e lacrimejamento. Se a criança tropeça e cai muito ou apresenta posição irregular da cabeça para assistir à TV, estes podem ser sinais de estrabismo.

Os professores também precisam ficar atentos a essa situação, pois a escola é um ambiente em que a criança manifesta seus problemas físicos e afetivos. Na sala de aula ou durante o horário do recreio, os professores podem observar sinais de que os alunos apresentam algum problema de visão, o que sugere de imediato a necessidade de consulta oftalmológica que já é um ato de prevenção. Os sinais mais comuns ocorrem quando estudantes com alguma deficiência visual costumam apertar ou esfregar os olhos com frequência, piscam muito ou franzem a testa para olhar a distância; quando se queixam de tontura, náusea, dor de cabeça ou sensibilidade excessiva à luz; quando não enxergam bem de longe e, por isso, podem evitar atividades esportivas que exijam essa habilidade; quando andam com cuidado excessivo, esbarram ou tropeçam com facilidade; quando, para escrever ou ler, às vezes, aproximam-se demais do caderno ou do livro.

MEDIDAS PREVENTIVAS

Pais e responsáveis devem tomar algumas medidas a fim de que sejam detectadas situações que, com o tempo, tendem a se agravar. Ao iniciar a vida escolar é preciso que pais e professores fiquem atentos aos problemas de visão na criança, pois o processo de ensino-aprendizagem depende primordialmente da visão, completa a doutora Carrari. Na verdade, diz ela, o ideal é fazer, em todo início de ano letivo, um completo exame oftalmológico, dando ênfase ao diagnóstico de vícios de refração – miopia, hipermetropia e astigmatismo.

Em geral, não há idade para que um distúrbio ocular se manifeste. A prevenção começa logo após o nascimento da criança. Bebês prematuros, em especial aqueles que nascem com menos de 1,5 kg e vão para a incubadora, precisam de acompanhamento constante do oftalmologista, que perdura por 90 dias, após a alta do hospital, para avaliar se não há nenhuma alteração da retina.

Por isso, logo ao nascer o bebê deve ser submetido a exames capazes de detectar problemas como tumores, catarata congênita, traumas de parto e erros de refração como miopia, hipermetropia e astigmatismo, além de outras complicações que podem até levar à cegueira.

Outra moléstia que pode ser detectada por meio de testes é o glaucoma congênito, que se caracteriza pelo aumento da pressão no interior do globo ocular. Nesse caso, o bebê precisa ser submetido a uma cirurgia de urgência para evitar que o olho atingido seja permanentemente lesado. O diagnóstico precoce de doenças oculares que só seriam percebidas mais tarde, quando as chances de tratamento já estariam limitadas, é o grande mérito dos exames preventivos. No caso da catarata congênita, o bebê deve ser submetido a uma cirurgia antes do segundo mês de vida, quando as chances de recuperação da visão chegam a 100%, diz a doutora Maria Carrari.

 

Imagem: Zmijak / Fotolia
Fonte: Vida e Saúde – Out. 2011, p.12 a 15