Segundo Tognetta e Vinha (2007, p. 14), os professores não são conscientes de que desejam um ideal de aluno, um padrão em que todos se encaixem. De modo geral, eles esperam que os estudantes aprendam da mesma maneira e sob o ritmo da classe; que se mostrem atentos e dóceis.

Tal modelo de disciplina, em vez de promover um ambiente propício à aprendizagem, gera insatisfação e resistência. Alguns alunos se submetem às imposições do sistema; outros se rebelam e “tentam criar seus próprios espaços de liberdade e de fala por meio do movimento, da conversa, do desrespeito às regras instituídas” (TOGNETTA e VINHA, 2007, p. 26).

Um exemplo do controle que a escola exerce sobre o modo de ser e estar do educando pode ser observado na organização para o uso do banheiro. De forma arbitrária, são impostos horários para que os estudantes satisfaçam suas necessidades fisiológicas, como se o organismo de todos se adequasse a tais limites. E o pior: aqueles que não acatam as normas são vistos como rebeldes ou indisciplinados.

Considerando os escritos de Foucault (1999) sobre a microfísica do poder sobre os corpos, percebe-se que muito do que acontece nas escolas é resquício de uma política disciplinar “emprestada” do regime prisional. Hoje a pena não mais se centraliza no suplício como técnica de sofrimento, mas na perda de um bem ou de um direito. Nesse sentido, os alunos são destituídos de direitos inalienáveis, entre os quais está a gestão do próprio corpo.

Nesse contexto, Agamben (2009, p. 38) explora o conceito de dispositivos referindo-se a mecanismos ou atividades de governo não fundamentados no ser. Os dispositivos controlam os gestos e pensamentos das pessoas de forma alheia à sua vontade.

A partir dos escritos de Freller (2008), é possível dizer que o uso dos banheiros envolve uma questão de cidadania. Ao investigar as causas da indisciplina, a autora descobriu que a sujeira e o abandono dos sanitários alimentavam as manifestações do fenômeno, pois, em meio a esse quadro, os alunos se sentiam humilhados, abandonados à própria sorte. Assim, o mau comportamento era uma maneira de expressarem sua indignação diante das péssimas condições oferecidas (FRELLER, 2008, p. 71).

Partindo da hipótese de que as escolas utilizam dispositivos para controlar o comportamento discente, realizou-se uma pesquisa com o objetivo de analisar a organização para o uso dos banheiros em instituições das redes pública e privada na região metropolitana de Sorocaba. Durante as visitas e conversas informais, detectou-se o estabelecimento de horários específicos para a utilização dos sanitários, a disponibilidade de papel higiênico de acordo com o status dos usuários, boxes destinados a pessoas com deficiência sendo usados como depósitos, banheiros em condições precárias no que se refere à estrutura física e higiene, entre outros problemas. Contudo, uma das situações mais constrangedoras foi a de uma instituição de ensino em que o papel higiênico fornecido aos alunos é fixado na mesa da inspetora. Quando os estudantes precisam usá-lo, devem passar por ali, puxar a quantidade necessária e seguir com o “tufo” de papel pelo pátio até chegar ao banheiro. Geralmente a funcionária chama a atenção deles: “É muito papel!”, “Você vai mesmo usar tudo isso?”, “Esse papel não é só seu, é da escola!”

Como se pode observar, os resultados apontam para um cotidiano organizado com o objetivo de garantir o bom andamento das atividades, mas destituído de reflexão sobre os princípios que devem nortear a vida nos espaços coletivos. Em muitos casos, o uso do banheiro é visto como um privilégio, não como um direito.

Apesar de o discurso escolar pautar-se no desenvolvimento integral do educando, nota-se que, na prática, a preocupação com a autonomia e criticidade dos estudantes tem sido negligenciada. Embora a indisciplina seja um fenômeno multifacetado, com diferentes sentidos e inúmeras causas, sabe-se que os comportamentos perturbadores dos alunos também podem surgir como uma forma de contestação da realidade. Portanto, é preciso atentar para as condições oferecidas pelas instituições. Além disso, as regras devem ser formuladas em conjunto com os alunos, de forma democrática, a fim de que todos possam desenvolver a autonomia e o espírito crítico, essenciais para o exercício da cidadania.

 

 

Referências
AGAMBEN, G. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
FRELLER, C. C. Histórias de indisciplina escolar: o trabalho de um psicólogo numa perspectiva winnicottiana. 2. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008.
TOGNETTA, L. R. P.; VINHA, T. P. Quando a escola é democrática: um olhar sobre as práticas das regras e assembleias na escola. Campinas: Mercado das Letras, 2007.
Adaptado de: BARBOSA, F. A. L.; GALIONI, E.; WATANABE, M. F. M. Esse papel não é só seu, é da escola!. In: Congresso Internacional de Educação, 1, 2016, Sorocaba. Anais eletrônicos… Sorocaba: Uniso, 2016. Disponível em: <https://goo.gl/1dCbdT>. Acesso em: 13 mar. 2017.

 

Fonte: Revista CPB Educacional – 1º semestre 2017.
Imagem: Adam121/Fotolia