A prática da inclusão social requer um preparo e dedicação especiais. Centenas de professores formam-se anualmente no Brasil, sem nem ao menos saber o que significa trabalhar com alunos deficientes, particularmente, deficientes intelectuais. Não se põem no currículo da maioria das faculdades de Pedagogia matérias relacionadas com este tema. Levando em conta o elevado índice de deficiência intelectual em nosso país, esta atitude parece revelar certo preconceito, ou, no mínimo, indiferença.

A filosofia da inclusão de alunos deficientes em salas de aula convencionais pegou a maioria dos professores de “calças curtas”. A ideia de inclusão, apesar de excelente, requer muito mais preparo e atenção por parte da nossa liderança educacional, do que se lhe tem concedido.

A ideia que se tem do deficiente intelectual é que ele é limitado, e que só consegue produzir até certo ponto, dependendo de seu Quociente Intelectual (QI). Mesmo quem trabalha com educação especial parece permanecer dentro deste limite. Pouco se acredita na sua capacidade de ir além do esperado. Todo professor sabe que qualquer criança não irá, realmente, além daquilo que se espera dela.

Feuerstein surgiu na constelação da educação para despertar a consciência de pais, professores e terapeutas no sentido de que, se acreditarmos que é possível ir além das expectativas, e trabalharmos neste sentido, isto acontecerá. Crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizagem e com deficiência intelectual, estão se beneficiando da Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural, surpreendendo o mundo com seus resultados.

Espero contribuir para despertar a consciência de educadores e terapeutas, no sentido de buscarem o conhecimento que os levará além da estreita visão que, por várias razões, impede o desempenho do deficiente intelectual e da criança com dificuldades de aprendizagem; e despertar, também, o interesse por mudar os conceitos arcaicos e comodistas, incentivando sua atuação em favor dos que sofrem os horrores do preconceito e da rotulagem. Com toda certeza, Reuven Feuerstein partilha plenamente deste profundo desejo.

Conheça o Dr. Feuerstein

A Modificabilidade Cognitiva Estrutural

Talvez você esteja se perguntando:

– Por que modificabilidade, e não mudança?
Porque mudança refere-se a toda transformação produzida por processos de desenvolvimento e amadurecimento:

  • Pela idade
  • Pelo desenvolvimento biológico – crescimento
  • Pela evolução das capacidades – inteligência

Modificabilidade

A MODIFICABILIDADE implica em transformações da estrutura do intelecto para melhor adaptação às necessidades e às situações da vida. Consiste no distanciamento significativo do curso normal do desenvolvimento do indivíduo determinado pelo contexto genético, neurofisiológico e pela experiência educativa. Na Modificabilidade a mudança é permanente, contínua e sistemática; é quantitativa, consistente e intrínseca; é flexível, adaptável e disponível.

Cognitiva

O sentido do termo COGNITIVA nos remete à capacidade de processar informações. Está intimamente relacionada com aprendizagem e com capacidade de adaptação, sendo dependentes dos processos de input, elaboração e output.

Estrutural

E por que ESTRUTURAL? Porque a cognição sofre transformações de ordem sistêmica e multiponencial: atenção, percepção, memória, planificação, controle, expressão. Muda-se toda sua maneira de funcionar. A modificabilidade, depois de instalada (cristalizada) tende a ser vitalícia.

Aceitação Passiva x Modificação Ativa

“O que frequentemente ocorre é uma aceitação tácita da dificuldade, às vezes, até por uma chamada questão ‘humanitária’ de não exigir daquele que não pode responder. Diante desta situação Feuerstein distingue duas posturas básicas frente ao desafio de atender uma pessoa com retardo, posicionando-se pela segunda:

1. Aceitação passiva
2. Modificação ativa.

Na primeira, relaciona os seguintes preconceitos:

  • o indivíduo retardado é incapaz de mudar;
  • não vale a pena fazer grandes investimentos;
  • a instrução deve ser o mais concreta possível, pois essas pessoas não conseguem abstrair;
  • deve-se investir precocemente na preparação para o trabalho, para permitir a independência;
  • o indivíduo atrasado deve permanecer num ambiente mais uniforme e seguro que não lhe seja hostil;
  • deve-se solicitar trabalhos que não ofereçam riscos, mesmo que haja interesse.

A segunda postura, a de modificação ativa, com a qual Feuerstein fortemente se identifica, baseia-se nos seguintes pressupostos:

  • o ser humano é um sistema aberto a mudanças, portanto o indivíduo com retardo pode, também, modificar-se;
  • a instrução deve favorecer o desenvolvimento das funções cognitivas;
  • o indivíduo deve receber programa de instrução acadêmica enquanto estiver motivado para tal e fazendo progressos;
  • a integração é bem vista e produtiva, portanto, permanecer junto a estudantes ‘normais’ em situações específicas onde possam ser ativos, é muito favorável;
  • deve-se oferecer conteúdo funcional de linguagem escrita e matemática que permita independência, bem como preparar para locomoção independente.”

A Teoria na Prática

E como lidar com as recusas, a desatenção, a falta de apoio da família no caso de crianças com déficits cognitivos? Se estamos falando de inclusão, elas provavelmente estarão inseridas em escolas convencionais que, na maioria dos casos no Brasil, são constituídas de classes superlotadas. Como dar atenção a elas? Como fazer para que elas se interessem, que acreditem em si mesmas, que sintam que vale à pena lutar? Como lhes mostrar que são pessoas de valor, que são capazes, que não são, em nada, menos importantes que os colegas? Aí está o grande desafio.

Assim como nem todos os músicos são Carlos Gomes, nem todos os médicos são Ben Carson, nem todos os cientistas são Einstein, e nem todos os dramaturgos são Shakespeare, assim, nem todos os professores são gênios.

Mas, anime-se, gênios ou não eles têm poder para escolher:

  • Crer no potencial da criança;
  • Estar dispostos a investir nela e se cansar por elas;
  • Perseverar;
  • Repetir os mesmos ensinamentos centenas de vezes se for preciso;
  • Usar e abusar da criatividade na hora de repetir;
  • Extravasar bom humor;
  • Ser um professor mediador;
  • Amar.

 

Referências
CRUZ e PIERONI RODRIGUES, Adaptado da apostila do PEI nível II – Janeiro 2010.
RUBINSTEIN, Edith – Coletânea de textos de apoio do Seminário de Psicopedagogia – págs. C84, 85 – Janeiro de 2000.
TEBAR BELMONTE, L. El Perfil del Profesor Mediador, Madrid: Editora Santillana – Citado em RUBINSTEIN, Edith – Coletânea de textos de apoio do Seminário de Psicopedagogia – pág. B 12 – Janeiro de 2000.
Imagem: Creativa/Fotolia