Por falar em lúdico, iniciamos o texto contando uma história, lenda ou algo semelhante. Ela se intitula “O rei está nu!”.

Conta-se que em certo reino existia um rei fascinado por roupas novas (talvez para arrancar suspiros quanto a sua aparência e poder). Seja como for, essa particularidade do rei se tornou um assunto muito comentado, a ponto de chegar ao conhecimento dos reinos vizinhos, pois era evidente a fragilidade do monarca em relação a esse assunto. Sabedores disso, espertalhões de um outro reino fizeram a ele uma visita para oferecer-lhe uma roupa totalmente nova e futurista: uma “roupa invisível”!!!

Esses falsos tecelões simularam um tear real, com fios fictícios, os quais causaram alguma estranheza ao rei, mas como ele gostava muito de aparência, resolveu aceitar a proposta com medo de que o julgassem desatualizado ou coisa do gênero. Os súditos, por sua vez, fizeram caras e bocas, admirados dessa nova tendência da moda a qual consideravam “inédita”. No entanto, ninguém ousava questionar a confecção inusitada. E assim a roupa foi sendo tecida diante dos olhos de todos.

Finalmente o grande dia chegou!!! Haveria o desfile real com uma roupa de “vanguarda”! Todos estavam ansiosos para ir ao desfile. A plateia, com olhos também futuristas, ficou estarrecida com tamanha “tecnologia” apresentada por meio da veste nova do rei.

No entanto, no meio da multidão, uma criança resolveu expressar corajosamente o que seus olhos denunciavam e, usando toda a sua sinceridade e simplicidade, gritou a plenos pulmões: “O REI ESTÁ NU”!!

Nesse instante, traída por sua falta de sinceridade e bom-senso, a multidão não suportou mais o paradoxo entre a realidade expressa diante de seus olhos e a mentira instaurada e resolveu ecoar as palavras do garotinho bradando em coro… “O REI ESTÁ NU”!!!

Os olhos do rei se abriram naquele instante e ele percebeu sua real condição. Assim, saiu em disparada rumo ao palácio e conta a estória que de lá nunca mais saiu em função da vergonha pública.

Essa pequena estória nos remete a alguns questionamentos:

  • Quem representa o rei no cenário da Educação (incluindo a maneira como trabalhamos com o lúdico)?
  • Quem é o reino vizinho com a proposta indecente?
  • Quem são os súditos do rei?
  • Quem é a criança?

Não sei qual resposta você dará a cada uma dessas perguntas, pois é uma questão de interpretação, mas para mim o “rei” simboliza a Educação. Ela está nua porque carece de propósito e conteúdo (inclusive a Educação Cristã). A Educação está nua porque está fragmentada. Para ser redentiva e integradora, ela precisa sempre levar em consideração o corpo, a mente e o espírito. E tentamos cobrir essa fragmentação trazendo alguns paliativos como tecnologias, objetos, etc., mas esquecemos do essencial – que a aprendizagem se faz utilizando o corpo, a mente e o espírito (estes são os vizinhos do reino talvez). Por fim, sempre é necessário existir uma criança para desmascarar todo esse processo paradoxal. E as crianças nos informam até mesmo por meio da indisciplina (corpos irrequietos) que o que estamos oferecendo a elas não está adequado.

Nossa abordagem neste texto parte de uma cosmovisão bíblico-cristã para analisar a importância do lúdico. Levando em consideração que nada é neutro em Educação precisamos analisar o tema em foco pautados por alguma visão filosófica educacional. O lúdico se insere em um panorama social, cultural, filosófico e político (entre outros). E cada um desses aspectos se insere num todo maior, o grande conflito cósmico que está por trás de todas as ações, e que precisa também ser analisado e avaliado.

Antes de analisar propriamente os aspectos da ludicidade, precisamos ter em mente a figura da criança e sua infância. Muitos são os conceitos envolvidos quando se fala em criança e infância, mas nos valeremos de um conceito que abarca visões atuais no mundo acadêmico. Para nós, a criança é um ser criado à imagem de Deus, dotada de corpo, mente e espírito, que se desenvolve por meio de um processo, mediante diferentes mediações e contextos culturais e metafísicos, num determinado tempo e espaço, com o propósito de amar e servir (aceito ou não por seu livre-arbítrio).

Aqui tem início a grande contribuição do lúdico para a formação desses pequenos seres em desenvolvimento. Simultaneamente, observa-se a ação do grande conflito impondo situações que podem prejudicar e comprometer o desenvolvimento infantil, atrapalhando o processo e provocando traumas. Isso pode ocorrer em razão de uma infância miserável, talvez exposta a trabalhos servis (inclusive adultos), de uma infância asséptica, na qual a criança parece um bibelô que não pode ser tocada ou de uma infância livresca/digital na qual a ludicidade e o movimento são roubados. E a infância é uma só! Não volta mais!!!

Não é por acaso que tantas variáveis concorrem para prejudicar o desenvolvimento infantil. No entanto, uma ação intencional tem proporcionado todas as condições para que essas crianças se tornem adultos estruturados no tripé corpo, mente e espírito, em condições de amar e servir, contra as forças das trevas que buscam destruir a infância. E eu perguntaria: qual o papel que podemos desempenhar nesse embate? Outro aspecto a ser compreendido é o local onde a infância ocorre. Por vezes locais espacialmente restritos impedem a exploração corporal (fundamental para o desenvolvimento de corpo, mente e espírito).

Sabedores de quem é a criança sobre a qual estamos falando e os contextos nos quais está inserida (físico: envolvendo os aspectos social, cultural, político, entre outros; e o metafísico: envolvendo o grande conflito), podemos agora conversar sobre a ludicidade e sua relevância para essa faixa etária.

Como em todas as áreas da Educação, o lúdico é apresentado em várias perspectivas teóricas e cada abordagem conceitua o termo de maneira diferente. Nosso objetivo neste texto não é explorar as diversas abordagens, mas apontar a importância do lúdico em uma abordagem com uma perspectiva cristã.

A palavra lúdico vem de ludus e significa “jogo, brincadeira”. É relativa também à conduta daquele que joga, que brinca e que se diverte, no dizer de Ignachewski (2011, p. 81). Quanto ao jogo, complementa: “A função educativa do jogo oportuniza a aprendizagem do indivíduo, seu saber, seu conhecimento e sua compreensão do mundo.”

Trabalhando um pouco melhor os termos “brincar” e “jogo” temos os dois conceitos na ordem que se segue: “O brincar é uma ação livre, que surge a qualquer hora, iniciada e conduzida pela criança, dá prazer, não exige, como condição, um produto final; relaxa, envolve, ensina regras, linguagens, desenvolve habilidades, e introduz no mundo imaginário. Para nosso estudo considera-se todo o período da Educação Infantil como importante para a introdução das brincadeiras” (KISHIMOTO, Brinquedos e brincadeiras na EI).

No mesmo texto, a autora apresenta a proposta das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil quanto à ludicidade e sua relevância para a criança:

 

Interação com a professora
Essencial para o conhecimento do mundo social, abrangendo a exploração de novas possibilidades por meio de brinquedos e jogos;

Interação com as crianças
Garantia de conservação e recriação do repertório lúdico infantil;

Interação com brinquedos e materiais
Essencial para a percepção de formas, texturas, cores, tamanhos, espessuras, cheiros e outras características dos objetos que envolvem o mundo da criança;

Interação com o ambiente
Apropriação do mundo que rodeia a criança, que reflete a concepção de educação proposta;

Interação entre instituição, família e criança
Possibilidade de troca de elementos da cultura popular com as cantigas e brincadeiras da família.

 

Quanto à relevância de um trabalho tendo como pano de fundo o brincar e o lúdico, a proposta curricular da EI estabelece que as práticas pedagógicas devem garantir os itens a seguir (Art. 9º):

I. Promovam o conhecimento de si e do mundo por meio das experiências sensoriais, expressivas e corporais para movimentação ampla, expressão da individualidade e respeito pelos ritmos e desejos da criança;

II. Favoreçam a imersão nas diferentes linguagens e domínio de gêneros e formas de expressão: gestual, verbal, plástica, dramática e musical;

III. Possibilitem às crianças experiências de narrativas de apreciação e interação com a linguagem oral e escrita e convívio com diferentes suportes e gêneros textuais, orais e escritos;

IV. Recriem, em contextos significativos, relações quantitativas, medidas, formas e orientações espaço/temporais;

V. Ampliem a confiança e participação nas atividades individuais e coletivas;

VI. Possibilitem a aprendizagem da autonomia das crianças no cuidado pessoal, na auto-organização, no cuidado com a saúde e o bem-estar;

VII. Possibilitem vivências estéticas e éticas com diferentes grupos culturais;

VIII. Incentivem a curiosidade, a exploração, o encantamento, o questionamento, a indagação e o conhecimento em relação ao mundo físico e social, ao tempo e à natureza;

IX. Promovam o relacionamento e a interação das crianças com diversas manifestações musicais, artísticas, gráficas, fotográficas;

X. Promovam a interação e o cuidado com o ambiente, assim como o não desperdício dos recursos naturais;

XI. Propiciem a interação com a cultura brasileira;

XII. Possibilitem o uso da tecnologia.
Portanto, torna-se inegável o valor dessa perspectiva do lúdico. No entanto, preocupa-nos que algumas brincadeiras ou atividades tenham o nome de lúdico, mas a pessoa que promova a atividade esteja distante de ter uma “atitude lúdica”. Faz-se imperativo esse “modo de ser” na Educação para que se alcancem os fins lúdicos. Já tivemos a oportunidade de ver pessoas trabalhando brincadeiras e atividades alegres com um baixo nível de humor prejudicando o clima lúdico e singelo do momento.

“Reencontrar o lúdico, entender o seu valor revolucionário, torna-se imperativo se deseja preservar os valores humanos do homem. Da mesma forma, através dele podemos resgatar a criatividade, ousando experienciar o novo, acordar do estado vegetativo, improdutivo, disfuncional do corpo ou da mente e escolher tornar-se homem, resistindo às experiências de vida desumanizantes, acreditando em si, em suas ideias, sonhos e visões, elementos, entre outros, percebidos como intrínsecos dos homens e da humanidade.” (MELO, 1999, p. 31)

O texto acima contém muitas verdades. No entanto, para aqueles que realizam ou pretendem realizar uma educação cristã, seria importante lembrar que qualquer perspectiva do lúdico que se esqueça dos ideais bíblico-cristãos, deixou parte da tarefa para trás. Quando Deus criou o homem, colocou-o num jardim. Ali o ser humano teria todos os elementos lúdicos, acadêmicos necessários a qualquer área do conhecimento. Portanto, quando aproximamos nossas crianças de ambientes naturais (dentro do possível), damos a elas a possibilidade de unir os aspectos da ludicidade com a visão de mundo e do grande conflito e as questões de causa/efeito nos diferentes contextos e situações. Além de proporcionar a exploração e vivência com aquilo que está vivo e dinâmico (plantas, animais, etc.) a criança poderá usufruir de tudo isso tornando-se responsável por todas essas coisas, além de almejar um jardim restaurado onde o pecado não mais apagará as digitais do Criador, e além de se beneficiar das dádivas da luz solar entre outros presentes que o Senhor nos dá.

“Depois da Bíblia deve a natureza ser o nosso grande compêndio… A natureza apresenta uma fonte infalível de instrução e deleite.” (WHITE, 2007, p. 43). Prestaram atenção à palavra deleite? Deus é o Deus do lúdico e nos deixou como Sua maior brinquedoteca a natureza. Quando puder, ajude as crianças a usufruírem desse ambiente.

 

Veja 8 brincadeiras para estimular o desenvolvimento da criança

 

Referências
BRASIL. Diretrizes curriculares nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_ocman&view=download&alias=9769-diretrizescurriculares-2012&category_lug=janeiro-2012-pdf&Itemid=30192>. Acesso em: 14 jul. 2016.
IGNACHEWSKI, Ildamara. O lúdico na formação do educador. In: ROSA, Adriana (Org.). Lúdico &alfabetização. Curitiba: Juruá, 2011.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Brinquedos e brincadeiras na Educação Infantil. ANAIS DO I SEMINÁRIO NACIONAL: CURRÍCULO EM MOVIMENTO – Perspectivas Atuais Belo Horizonte, 2010. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&task=doc_download&gid=6672&Itemid=>. Acesso em: 14 jul. 2016.
MELLO, Míriam Moreira de. O lúdico e o processo de humanização. In: MARCELLINO, Nelson Carvalho (Org.). Lúdico, educação e educação física. Ijuí: Ed. Unijui, 1999.
WHITE, Ellen G. Orientação da criança. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2007. p. 43.

 

 

Fonte: Revista CPB Educacional – 2º semestre 2016.
Imagem: Romolo Tavani/Fotolia