Primeiro ato

Ano: 1958. Série: 3º ano primário. Professora: dona Terezinha. Escola: Ginásio Paulista. Aluna: eu.

Dona Terezinha me metia medo. Era uma mulher forte, mas não gorda. Aos meus olhos de menina pequena, ela parecia um gigante. Seios fartos, ela costumava cruzar os braços escondendo-os dos nossos olhos, enquanto a classe fazia as tarefas em silêncio. Seus lábios carnudos estavam sempre muito vermelhos de batom. Ela estava sempre bem penteada e com brincos da cor do batom. Seu olhar era altivo, tanto quanto sua postura. Quando olhava para mim eu me sentia do tamanho de uma mosca. Bem que eu gostaria de me transformar em uma quando ela se aproximava, assim poderia voar para longe e escapar aos castigos e às reprimendas. Fracassei nos estudos naquele ano.

Segundo ato

Ano: 1960. Série: 4º ano primário. Professora: dona Norma. Escola: Grupo Escolar Arnaldo Barreto.

Dona Norma me acolheu com carinho na sua sala. Era calma, simples, apesar de sempre bem vestida. Não havia nada nela que me chamasse a atenção, a não ser o carinho com que me tratava. Ela foi a primeira professora a me confiar a tarefa de recitar uma poesia diante de todos os alunos e professores da escola. Subi numa cadeira e comecei. Mas a última estrofe desapareceu da minha memória. Envergonhada, desci da cadeira sob os poucos aplausos dos colegas e mestres que sentiram pena de mim. De volta à sala de aula, alguns colegas começaram a me criticar, e dona Norma me defendeu com carinho e respeito.

Lembro-me de ela ter me ajudado a fazer um cartaz para a campanha contra a tuberculose. Ganhei o segundo lugar, com um prêmio de Cr$ 500,00 (quinhentos cruzeiros), que foram depositados numa conta da Caixa Econômica. Recebi o prêmio no dia da minha formatura. Eu me senti nas nuvens. Queria levar dona Norma para casa comigo. Aquele ano ficou marcado como um ano de vitórias.

Esses dois atos da minha vida foram incluídos aqui como exemplo, mostrando a profunda verdade contida no pensamento de Reuven Feuerstein: afeto e cognição são as “duas faces de uma mesma moeda transparente”1 .

Creio que, enquanto você lê essas linhas, sua memória viaja por tempos escolares durante os quais deve ter passado por experiências semelhantes. Todos passamos, num momento ou noutro, numa intensidade ou noutra. Essas experiências nunca são esquecidas. E como educadores que somos, é muito bom que não as esqueçamos, pois assim conseguiremos discernir melhor onde o calo dos nossos alunos está doendo. Chamamos isso de empatia.

Envolvimento e comprometimento

Confúcio já dizia: “Conte-me, e vou esquecer; mostre-me e vou lembrar; envolva-me e eu vou entender”. E por falar em envolvimento, lembro-me de um princípio da empatia que diz o seguinte: A galinha, quando põe os ovos, se envolve com a alimentação humana. O boi, quando dá a carne, se compromete. Isso me leva a crer que, quando o professor consegue motivar o aluno a se envolver com o aprendizado, ele se comprometeu com sua educação. Ele deu sua vida para salvá-lo do fracasso escolar e da marginalidade. Um professor bem-sucedido não pode ser menos que comprometido com a educação. Ele é professor dentro da sala de aula e fora dela. Em todo tempo.

Você já se encontrou com ex-alunos depois de muitos anos? Eu já. Ao me virem ou me encontrarem, não me chamam pelo nome nem de dona Charlotte. Eles dizem:

– Professora!

Fui e sempre serei a professora deles, mesmo que hoje já estejam de cabelos brancos ou carecas. É claro que você e eu temos uma vida a ser considerada, mas, tendo abraçado a difícil tarefa de educar, não podemos nos dar ao luxo de permitir que nossos dramas, nossos conflitos, nossas frustrações e decepções interfiram na qualidade do aprendizado deste que é a razão do nosso trabalho: o aluno.

Espero que essa reflexão tenha trazido algum benefício e estímulo para sua experiência. Um grande abraço!

 

Imagem: Paula Lobo