Li certa vez uma interessante história sobre a influência da crença do professor no desempenho de seus alunos. Diz a história que uma escola de renome fez uma experiência com uma turma de alunos de bom desempenho escolar.

A direção chamou dois novos professores e designou metade da turma para um e a outra metade para outro. Chamando o primeiro professor, instruiu-o acerca da classe apresentando-a como uma turma de muito bom nível cognitivo e com um desempenho excelente no aprendizado. Não mencionou o fato de estarem fazendo parte de uma pesquisa. Desejou-lhe sucesso e mandou chamar o segundo professor.

A este disse que sua turma era composta de alunos medíocres e de baixo rendimento escolar. Pediu que se esforçasse ao máximo para melhorar o quadro, mas que não poderia garantir que teria muito sucesso. A este também não falou da experiência.

Os dois professores assumiram suas classes e trabalharam o ano inteiro. Ao fim do ano, as avaliações das duas turmas de nível cognitivo acima da média, revelaram que o primeiro grupo se saiu muito bem, como sempre. O segundo grupo caiu consideravelmente no rendimento escolar.

Conclusão: os professores acreditaram no que ouviram quanto às capacidades de seus alunos. Mesmo sendo as duas turmas de nível cognitivo e escolar alto e semelhante, a diferença da primeira para a segunda apontou para o fato de que a crença do professor, mesmo que não expressa em palavras, influencia a autoconfiança do aluno em suas capacidades tanto para o sucesso quanto para o fracasso.

“Lugar de burro é no pasto”?

Há alguns dias uma mãe veio falar comigo sobre um fato que a estava preocupando. Seu filho lhe contou que um dos professores da escola costuma depreciar o aluno quando ele não entende alguma explicação. Ele simplesmente diz:
– O que você está fazendo aqui? Seu lugar é lá na APAE! – ou – Lugar de burro é no pasto!
Os próprios alunos, pessoas inteligentes, perceberam que o professor estava usando uma forma depreciativa (bullying) de lidar com as dificuldades dos colegas, mas não tiveram coragem de reclamar com a direção.

Como se sente uma criança, um adolescente ou mesmo um adulto, quando ouve algo assim a seu respeito?  Não é necessário dizer que a maioria dos alunos deste professor tem notas baixas na sua matéria. Ele simplesmente não acredita na capacidade deles de aprender.

No contexto da inclusão

É preocupante que isso aconteça, porque se um professor diz isso para alunos que simplesmente não estão entendendo a matéria, o que ele diria para aqueles que realmente têm dificuldades acentuadas na aprendizagem? Acreditaria ele que o aluno incluído será capaz de superar suas deficiências? Saberia ele como lidar com alunos a quem se precisa repetir 100 vezes a mesma coisa de formas diferentes e criativas, antes que ele consiga entender o conteúdo da matéria? Estaria ele apto a aceitar o fato de que o ser humano é modificável em sua estrutura cognitiva? Estaria este professor disposto a admitir que é sua própria insegurança que se reflete inconscientemente nesses tipos de expressão?

Acredito que alguém em sã consciência, conhecendo o alcance e o poder das palavras, jamais humilharia seus alunos, incutindo neles a crença de que são incapazes. Assim sendo, coloco abaixo a Declaração de Crença na Modificabilidade Cognitiva Estrutural, um sistema de crenças criado por Reuven Feuerstein, que pode ajudar você, professor, a refletir sobre seu magistério, e, com a humildade que caracteriza todo bom cristão, buscar poder do alto para seguir esses parâmetros sábios e eficientes.

Feuerstein afirma que “a crença na modificabilidade humana é igualmente essencial ao pleno funcionamento profissional do educador” (Don\’t Accept me as I Am, p. 5). O autor sugere, com convicção, que as cinco declarações de crença, descritas a seguir, determinam se o educador de indivíduos com desempenho deficiente está pronto para assumir esta função.

Declaração de Crença na Modificabilidade Cognitiva Estrutural

1 “Os seres humanos são modificáveis
Todo ser humano deve ser considerado como um sistema aberto, capaz de ser significativamente modificado pela intervenção do meio. Essa visão contrasta vigorosamente com a visão hereditária geral do potencial de realização, que, em sua forma extrema, considera que o nível máximo de funcionamento do indivíduo é determinado unicamente por sua dotação genética”.

2 “O indivíduo que estou educando é modificável
A maneira como o indivíduo reage à intervenção pode levar o educador a considerar a modificabilidade como algo ‘não aplicável’ à criança que está aos seus cuidados. Essa crença negativa pode impossibilitar as muitas atividades necessárias à obtenção da modificabilidade. Para se ativar e perseverar numa intervenção em longo prazo, é imperativo que, a despeito de experiências de fracasso, a crença do educador na modificabilidade humana seja forte e atribuída à criança em questão”.

3 “Tenho condições de provocar modificações no indivíduo
Esta terceira proposição está relacionada com os sentimentos de adequação e competência do educador, como uma força ativa e eficiente para promover a modificabilidade no estudante com o qual está lidando. Mesmo ao aderir à crença geral na modificabilidade humana e à modificabilidade de uma criança em particular, alguns educadores podem achar que a obtenção dos alvos individuais da modificabilidade está além de suas próprias capacidades. Tal percepção de falta de competência pode causar uma reformulação no sistema geral de crenças do educador acerca da modificabilidade humana. Pode ser que seja a criança, em lugar do professor, a responsabilizada pela falta de progresso educacional. Paradoxalmente, o professor que se sente inadequado pode evitar encaminhar a criança a alguém que poderia ajudar por não estar disposto a revelar sua incapacidade. Ocasionalmente todo professor terá que buscar ajuda de algum outro profissional para uma de suas crianças, ou até mesmo encaminhá-la a outro professor. Entretanto, se isso acontecer com muita frequência, particularmente depois de ter recebido treinamento adicional, o professor deve considerar com firmeza a possibilidade de mudar de profissão”.

4 “Eu mesmo sou uma pessoa que pode – e deve – ser modificada
O pleno desenvolvimento profissional poderá ser alcançado apenas quando o educador investir permanentemente em sua automodificação. Satisfação profissional é prejudicial ao processo de intervenção educacional, pois atenua as diferenças de uma criança para outra, desconsiderando suas capacidades e condições específicas, bem como muitos outros fatores socioculturais que dizem respeito a uma educação bem-sucedida. Quando falta ao educador a crença em sua própria modificabilidade, ele poderá, como resultado, exigir de maneira excessiva da criança com quem está trabalhando que se adapte, e, por sua vez, não estar pronto a se adaptar às necessidades dela”.

5 “A sociedade – e a opinião pública – são modificáveis e devem ser modificadas
O educador nem sempre encara a sociedade como um alvo legítimo para sua atividade educacional. A sociedade costuma ser considerada como o fator determinante, e não como um alvo para intervenção. Desejamos enfatizar que a modificabilidade do indivíduo passa pelo ‘filtro’ das condições sociais. Modificabilidade de atitudes culturais, práticas e normas sociais, bem como de opinião pública é sempre um processo extenso. Mas todo educador deve considerar a sociedade como um de seus principais alvos de intervenção” – FEUERSTEIN, Reuven. Don\’t Accept me as I Am, p. 5-7.

Desejo-lhe muito sucesso na sua caminhada educativa! Com afeto, Charlotte Fermum Lessa.

 

Imagem: Paula Lobo