Com certeza, o (a) professor(a) que lê este artigo já deve ter se deparado com desenhos de seus alunos, que o (a) deixaram intrigado. Cenas de violência; representações de família com a ausência da criança em questão; reproduções de sala de aula, com ela ou sentada bem longe da professora, ou perto demais; desenhos de tamanhos desproporcionais em relação aos membros da família, ou aos colegas de classe, ou amigos, ou o (a) professora, e coisas semelhantes. Cada desenho que a criança faz pode ter um significado profundo quanto à sua forma de encarar o ensino / aprendizagem, e a vida num sentido mais lato.

Levando isso em conta é importante que o mestre considere o desenho livre feito pelo aluno, como um reflexo do que se passa, naquele momento, em seu inconsciente. Ele pode estar gritando por socorro, pode estar expressando raiva, frustração, sentimento de menos valia, ou, ao contrário, sentimento de superioridade, etc.

Como lidar com estas situações não explicitadas pela criança? Em primeiro lugar não julgue o conteúdo do desenho sem conhecer a realidade dela. Em segundo lugar, ao perceber alguma anormalidade, busque ajuda de um profissional [psicopedagogo (a) escolar, psicólogo (a) escolar], para fazer uma avaliação da criança em pauta.

É importante que você ame e valorize seu aluno. Evite abordar problemas conhecidos, pois poderá fechar uma porta para seu sentimento de segurança e libertação emocional. Não tente fazer o papel de outro profissional. Professor é professor. Mesmo que seja formado em psicologia. Neste caso, não misture as coisas! Use seus conhecimentos em psicologia só para perceber as entrelinhas, não para aconselhar ou tratar problemas emocionais específicos, mesmo que estejam relacionados à aprendizagem.

Vamos ver alguns itens que podem ser úteis para o professor no sentido de perceber problemas subjetivos no aluno, capazes de atrapalhar seu desempenho nos estudos:

Desenho da figura humana

Falta de membros, membros incompletos, ou membros com tamanhos exagerados ou minúsculos, mãos escondidas no bolso, ou nas costas – estas situações demonstram a forma como a criança se enxerga. Se ela for paraplégica, pode desenhar um corpo sentado atrás de uma mesa com toalha, ou mesmo desenhar só a cabeça, os braços e o tronco. Ou, ela pode desenhar um corpo pequeno com pernas muito grandes. A criança que sofre de dores de cabeça pode desenhar uma cabeça de tamanho desproporcional em relação ao corpo; se ela tem dificuldades de audição, pode, ou omitir as orelhas, ou desenhar orelhas muito grandes. Mãos escondidas podem significar sentimento de incapacidade. Crianças com letra feia, ou que não sabem desenhar, ou que têm problemas na coordenação motora fina, geralmente omitem, ou escondem, as mãos. Conhecendo estes fatores, fica mais fácil você buscar uma abordagem de ensino menos rígida, sendo mais flexível e empático (a).

Desenho infantilizado

Quando uma criança de 10 anos, por exemplo, desenha como uma criança de cinco anos, ela está mostrando que há uma disparidade entre idade cronológica e idade mental. Quando isso acontece, ela não está pronta para a alfabetização, pois ainda não consegue transformar a imagem em registro gráfico apropriado. O desenvolvimento da escrita costuma partir do traço, ao desenho e, por fim, à escrita.

Tamanho do personagem principal

Em seu livro Técnicas Projetivas Psicopedagógicas, p. 73, Jorge Visca apresenta um significado para cada tamanho:
Grande – Regularmente indica uma relação de liderança ou certa incapacidade para descentrar-se, aceitando os pontos de vista dos outros.
Pequeno – Geralmente sugere submissão, como também que o entrevistado (a criança) se sente vítima do grupo.
Igual – Resulta em que o entrevistado se vê no grupo com uma relação simétrica e igualitária, ou seja, que aceita e é aceito pelo mesmo.

Esses são apenas alguns dos muitos aspectos que devem ser considerados pelo (a) professor (a), quando percebe que seu aluno está tendo dificuldades para aprender. Passo aqui uma bibliografia que pode ajudá-lo (a) na hora de decifrar os desenhos de seus pupilos:

  • Técnicas Projetivas Psicopedagógicas e pautas gráficas para sua interpretação – Jorge Visca – Visca & Visca Editores, Argentina.
  •  Como Interpretar os Desenhos das Crianças – Nicole Bédard – Editora Isis, São Paulo.
  •  Psicomotricidade – educação e reeducação num enfoque psicopedagógico – Gislene de Campos Oliveira – Editora Vozes, Rio de Janeiro.