Estava recordando o primeiro semestre do mestrado, quando me veio à mente uma provocação rotineira de determinada professora. Cada vez que ela mostrava as complexidades, bem como os desafios dos projetos que nos levaram até ali, ela apelava nos interpelando: Mas, e daí?

Esse “e daí?” vinha carregado de questionamentos que nos faziam e ainda fazem refletir sobre a relevância ou aplicabilidade de propostas que redundem em algum bem. Apesar de nos levar a pensar menos superficialmente sobre nossas pesquisas, a expressão virou um pouco brincadeira, sendo explorada de maneira divertida por uma aluna da turma, sempre que era sua vez de apresentar o andamento de seu trabalho.

 

O “e daí?” da vida
Tenho a impressão de que, no fundo, todos nós temos uma diversidade de “e daí?”, que aparece espontaneamente a cada escolha, em cada decisão, em cada expectativa, nos sonhos e planos para o futuro ou até na releitura do passado. O “e daí?” cotidiano parece buscar respostas que tragam sentido à vida e seus acontecimentos.

Entender por que as coisas são como são, para onde elas nos levarão ou mesmo de onde viemos são perguntas milenares. Mais propício ainda se torna um “e daí?” após a fatídica sequência: nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer. Seria só isso a existência humana?

Depois de metas alcançadas, sonhos renovados, conquistas realizadas… o que vem? Todo esforço empenhado, o suor derramado… e daí? São muitas as frases, as letras de canções, os pensamentos de personalidades que cogitam encontrar valor na trajetória da vida. Cora Coralina, poetisa brasileira, disse que “o que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada”.

Em 2003, a revista britânica Journal of Humanistic Psychology publicou o relatório de um grupo de psicólogos, dirigidos por Richard Kinnier, da Universidade do Arizona (EUA), que se dedicou a analisar o sentido da vida por meio das palavras de 200 pensadores. A conclusão do estudo foi que “é preciso desfrutar a vida enquanto for possível”.

Para o físico britânico Stephen Hawking, famoso por seu livro Uma breve história do tempo, a vida é um mistério. Para Oscar Wilde, ela é uma piada. Para Freud e também Jean-Paul Sartre, a vida simplesmente não tem sentido. Pensadores mais otimistas, como o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau e o físico Albert Einstein, autor da teoria da relatividade, o sentido da vida é “amar, ajudar e prestar serviços aos demais”. O líder pacifista indiano Mahatma Gandhi disse: “Encontro meu consolo e minha felicidade me colocando a serviço de todas as vidas.”

Não importa a nacionalidade, nem a popularidade. É da praxe humana, inquirir: e daí? Quando penso em tudo isso, gosto de meditar na sabedoria de Cristo – Alguém cuja vida breve foi de sentido atemporal. O sentido da vida de Cristo continua perpassando os anos, dando sentido à nossa mera passagem, enquanto peregrinamos aqui, à Sua espera.

Ele alentou: “Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal”. Em outras palavras, a orientação do Mestre confirma o estudo acadêmico que diz: “desfruta a vida enquanto é possível”. E se a vida é feita de momentos, vivamos cada um deles intensamente, o que não significa, dissolutamente.

Cristo também explicou que maior é aquele que serve (Lucas 22:26). Juntando o que tenho tentado dizer desde o começo, acredito que o “e daí?” pode encontrar eco quando fazemos da nossa vida um grande sentido à vida dos outros. É o viver um dia de cada vez, de maneira consciente de que só se tem o hoje. E, o que temos para hoje? As possibilidades são infinitas quando se vive o bem, pensando em servir a alguém.

 

Fonte: Revista Vida e Saúde / Setembro – 2014.