Há 40 anos o problema da indisciplina era latente na escola. Conforme relato de professores mais experientes, as aulas eram tradicionais e o comportamento exigido era de respeito “militar”. A lousa, o centro da atenção; o professor, dono do conhecimento; o aluno, um aprendiz.

Por um lado, a escola mantinha um padrão rígido, por outro, as famílias, em geral, mantinham em seus lares um responsável em tempo integral para dar suporte à escola ou a qualquer outro sistema da sociedade.

Nas últimas décadas muita coisa mudou. A escola não tem mais um caráter tão repressivo por conta da valorização da democracia e dos direitos do cidadão; ouve-se muito falar em indisciplina escolar. Então, como acabar com a indisciplina em sala de aula ou diminuí-la, melhorando as condições de aprendizado dos alunos? A indisciplina é falta de disciplina (no sentido de repreensão), ou é falta de disciplina (no sentido de conteúdo em sala de aula)?

A queixa

Segundo Celso dos S. Vasconcellos*, doutor em Didática pela Universidade de São Paulo, a queixa dos professores em relação à indisciplina tem sido muito forte. Podemos citar, a título de ilustração, alguns depoimentos (omitimos nomes afim de preservar pessoas e Entidades):

“A falta de interesse está muito grande. Os alunos estão dispersos, não respeitam mais o professor, estão vivendo em outro mundo. Eles estão acostumados a apertar botão de videogame, de computador, a ver televisão e aí aparece o professor com apagador e giz…”

“As crianças de hoje são mais espertas do que as de antigamente. A família não tem colaborado; os alunos vêm sem limites de casa. Geralmente há até conivência dos pais: o professor nunca tem razão. Há muitos problemas familiares. A própria família não sabe o que fazer.”

“Às vezes, o professor é completamente ignorado na sala de aula; você entra e parece que não entrou ninguém.”

“Como explicar que a classe é disciplinada com determinado professor e não é com outro?”

Segundo o Dicionário Houaiss, disciplina é o conjunto dos regulamentos destinados a manter a boa ordem em qualquer assembleia ou corporação. Já a indisciplina, é a falta de respeito às regras, mau comportamento que compromete a vivência social.

Causa

O comportamento inadequado do aluno não pode ser visto apenas como uma causa da dificuldade para lecionar. Na verdade, ele é resultado da falta de adequação no processo de ensino. É preciso entender que a indisciplina é a transgressão de dois tipos de regras.

O primeiro refere-se ao princípio moral construído socialmente, que visa ao bem comum, por exemplo: não bater, não xingar, etc. O segundo tipo são as chamadas convencionais, exemplo: uso de celular, comportamento em sala de aula, respeito às regras da casa e da família, etc.

É hora de rever a ideia de indisciplina e o que há por trás dela. É preciso verificar a realidade da escola, da família, o psicológico, o social, etc.

As manifestações de indisciplina, muitas vezes, podem ser vistas como uma forma de se mostrar para o mundo. Em muitos casos, o indivíduo tem somente a intenção de ser ouvido por alguém. Para muitos alunos indisciplinados, a rebeldia é uma forma de expressão.

Outro aspecto relevante que pode ser observado na escola é o espaço para atividades. Crianças e adolescentes detêm muita energia, então, a falta de locais para “gastar” essa energia conduz à indisciplina.

Entre vários aspectos que geram a indisciplina está a família. Talvez o aluno indisciplinado faça parte de um lar em que os membros não se respeitam, e por isso ele passa a reproduzir na escola o que vivencia em casa.

Dos fatores que são elencados como possíveis causadores de manifestações de indisciplina no contexto escolar estão a perda de autoridade do professor, tanto no que se refere ao conhecimento, quanto à postura em sala de aula. Ao longo dos últimos anos, verificamos que muitos professores foram destituídos de seu lugar de “autoridades de saber”. Estão desqualificados, desatualizados e desmotivados. Utilizam procedimentos metodológicos que pouco desafiam os alunos a pensar, a construir conhecimentos. Em consequência, apresentam aulas pouco atrativas, que não estimulam a participação dos alunos.

Pode-se dizer que a indisciplina é o produto de uma sociedade na qual os valores humanos tais como o respeito, o amor, a compreensão, a fraternidade, a família e diversos outros valores foram ignorados.

Saída

Como vimos, existe mais do que um fator interligado para manter a disciplina. Então o que fazer?

Estudos mostram que se alunos ativos – mesmo quando apenas veem ou ouvem – se deparassem com professores questionadores que instigassem o desequilíbrio cognitivo, seriam estimulados a aprender, retomando o equilíbrio.

Assim, não haveria alunos fora das atividades propostas, mas sim envolvidos, não dando margem para manifestações de indisciplina.

 

*Celso dos S. Vasconcellos (Doutor em Didática pela USP; especialista em Educação pela USP, graduado em Pedagogia e Filosofia). Disponível em: http://www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ideias_28_p227-252_c.pdf. Acesso em: 10. fev. 2014.

 

Referências
AQUINO, Julio Groppa (Org.). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. 3. ed. São Paulo: Summus, 1996. p. 148.
ARAÚJO, Ulisses F. de. Moralidade e indisciplina: uma leitura possível a partir do referencial piagetiano. In.: AQUINO. Julio Groppa (Org.). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 2004.
REGO, Teresa C. R. A indisciplina e o processo educativo: uma análise na perspectiva vygotskiana. In.: AQUINO. Julio Groppa (Org.). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 2000.
VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola. São Paulo: Estação Liberdade, 2007.
Fonte: Revista CPB Educacional – 1º semestre 2014