Às vésperas de Natal, vitrines faíscam anúncios coloridos. Enfeites luminosos emolduram as fachadas. A cidade reluz em meio à noite alta. E o brilho das luzes apaga o espetáculo do céu. Nesse exemplo simples, o artifício encobre a arte original. Mas quem precisa do brilho da Lua ou do fulgor das estrelas, quando a eletricidade armazenada as usinas provê a luz necessária à vida moderna?

Em uma noite distante, o clarão que rasgou os céus da antiga Belém anunciava o primeiro Natal, o nascimento de Cristo, Deus encarnado, luz divina em forma humana. “Eu sou a luz do mundo; quem Me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida”, disse Jesus (João 8:12). Mas quem ainda precisa dessa luz?

Nossos shoppings se tornaram muito mais atrativos do que a penumbra decadente das velhas catedrais. Com exceção dos que ficaram de fora da festa do consumo, hoje somos mais bem informados. Vivemos interconectados. Transformamos o conhecimento em poder e nos apoderamos de todo o conhecimento possível. Em breve os livros empoeirados serão todos trocados por telas luminosas. Quem precisa da Luz que brilhou em Belém?

Apesar de tudo, o fato de vivermos em uma época iluminada como a nossa não garante que podemos enxergar melhor o mundo e a realidade ao nosso redor. No livro Ensaio sobre a cegueira, José Saramago fala de “cegos que, vendo, não veem”, descreve uma sociedade tomada de uma cegueira branca. É de fato esta a nossa condição?

Em sua obra Eclipse de Deus, Martin Buber, filósofo e teólogo austríaco de ascendência judaica, acredita que sim. “Eclipse da luz celeste, eclipse de Deus é, com efeito, o que caracteriza o momento do mundo em que vivemos.” Em meio a luzes tão diversas e igualmente atrativas, perdemos de vista a luz divina e seu brilho especial. Muitas vezes é difícil enxergá-la. Podemos até mesmo ser tentados a negar sua existência. Porém, renegar a luz divina não reduzirá o seu brilho eterno, mas aumentará as trevas no coração.

Quando você está longe das luzes da cidade, em noite sem nuvens, o céu é mais estrelado. Não porque estrelas novas apareceram de repente, mas porque foi reduzida a interferência em seu campo de visão. O mesmo princípio vale para a luz divina.

É necessário reduzir as interferências internas e externas para que o brilho de Deus ilumine os recantos mais obscuros e sombrios, em que escondemos nossos traumas, mágoas e angústias. Essa é a única luz capaz de eliminar até a última sombra de dor e sofrimento em nossa vida.

De fato, Deus é “o único… que habita em luz inacessível” (1 Timóteo 6:16). Separados dEle, estaríamos para sempre cegados em nossa pretensa iluminação. A beleza do Natal está em (re)descobrir que o nascimento de Cristo colocou ao nosso alcance a luz eterna: “A saber, a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem” (João 1:9).

 

Fonte: Revista Vida e Saúde – Dez. 2010
Imagem: Roman Dekan / Fotolia