Quem não sente um friozinho na barriga quando se vê diante da necessidade de fazer um cálculo matemático à queima-roupa? Bem, talvez alguns poucos privilegiados que conseguem fazer contas de cabeça e que aprenderam a raciocinar de forma lógica com rapidez e eficiência não sintam isso. Seria interessante se o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) incluísse em seu questionário a pergunta “Você gosta de matemática?”, ou, “Você tem facilidade para cálculo?”. Eu gostaria muito de saber quantos, dentre os 191 milhões e 500 mil habitantes do Brasil, responderiam “sim” a essas questões. Com certeza eu daria uma resposta diferente.

Existem muitas razões para uma criança (ou mesmo adulto) apresentar dificuldades na matemática. Algumas delas são essencialmente sociais:

Falta de vínculo com o professor;
Professor que não consegue formas diferentes de explicar algo que o aluno não consegue entender da primeira ou segunda vez;
Cultura escolar ou familiar que coloca sobre o pensamento lógico matemático um peso acima do real, rotulando a criança de “burra”, “preguiçosa” ou “avoada”, quando não responde como “deveria” ao que se espera dela nessa área.

Lembro-me bem (como poderia esquecer?) de um incidente que aconteceu comigo na infância que gostaria de partilhar com você a título de reflexão e esclarecimento.

Meu pai resolveu “ajudar” minha professora do 3º ano primário a me ensinar fração. Chamou-me à mesa da cozinha e começou:

– Lotti (meu apelido na infância), está vendo esta maçã?
– Sim.
– Vou cortá-la assim, ó. – Cortou-a ao meio e continuou:

– Agora eu tenho dois pedaços. Como se chama este pedaço (mostrou-me uma metade)?
– Metade – respondi, com medo do que viria depois.
– Isto! Agora eu pego as duas metades e corto no meio de novo. – Pegou um quarto da maçã, estendeu-a na minha direção e perguntou:

– E como se chama este pedaço?
– Não sei. – Soltando um suspiro perguntou:

– Filha, quantos pedaços tínhamos no começo?
– Dois – respondi.
– E agora, quantos temos?
– Quatro.
– Isto! E um destes quatro, como se chama?
– Não sei – respondi depois de tentar achar na memória o nome daquele pedaço de maçã. Então, o senhor Fermum começou tudo de novo. Do mesmo jeito. Minha resposta, obviamente, sempre foi a mesma, com a diferença de que no fim do “processo”as lágrimas já estavam escapando dos meus olhos. A coisa se repetiu mais algumas vezes, até que ele perdeu a paciência e, furando o caderno de um lado a outro com a ponta do lápis, num ímpeto de raiva (senti como se ele tivesse atravessado meu coração), gritou:

– Sua burra! – A esta altura minha mãe interferiu e minha malfadada “aula” foi encerrada.

Os esforços do meu ignorante, mas, bem intencionado pai, resultaram no estabelecimento de uma crença que me acompanhou por muitas décadas: “Eu sou uma burra!”

O que nenhum de nós sabia, era que eu havia sido educada e alfabetizada como destra sendo canhota, e que era portadora do Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Mas, mesmo tendo outras excelentes qualidades acadêmicas e artísticas, meus pais e minhas professoras focalizaram sua atenção na minha incapacidade para aprender matemática como “deveria”.

Depois de refletirmos em algumas das razões sociais para a cristalização das dificuldades de aprendizagem em matemática, chamo sua atenção para a explicação muito bem colocada num artigo do site www.mundoeducacao.com.br. Este artigo, cujo autor não é mencionado, afirma que “a discalculia é uma má formação neurológica que provoca transtornos na aprendizagem de tudo o que se relaciona a números, como:

  • fazer operações matemáticas,
  • fazer classificações,
  • dificuldade em entender os conceitos matemáticos,
  • aplicação da matemática no cotidiano e na sequenciação numérica.

“Acredita-se que a causa dessa má formação pode ser genética, neurobiológica ou epidemiológica. Normalmente, crianças e qualquer outra pessoa que possui tal distúrbio apresentam sinais como:

  • dificuldade com tabuadas,
  • ordens numéricas,
  • dificuldades em posicionar os números em folha de papel,
  • dificuldade em somar, subtrair, multiplicar e dividir,
  • dificuldade em memorizar cálculos e fórmulas,
  • dificuldade em distinguir os símbolos matemáticos,
  • dificuldade em compreender os termos utilizados.”

O artigo ainda menciona a ligação da discalculia com a dislexia. Afirma a possibilidade de ser percebida já na fase pré-escolar, “quando a criança tende a ter dificuldades em compreender os termos já utilizados, como igual, diferente, porém somente após a introdução de símbolos e conceitos mais específicos é que o problema se acentua e, sim, já pode ser diagnosticado”.

O site www.paisefilhos.pt mostra que no estudo, liderado por Brian Butterworth, do Instituto de Neurociência Cognitiva do University College London, em conjunto com o Centro Cubano de Neurociência, descobriu que, de 1.500 crianças avaliadas, 3% a 6% mostravam sinais de discalculia, enquanto a dislexia foi verificada entre 2,5 a 4,3 por cento das crianças”.

Agora, algumas dicas para os professores de crianças discalcúlicas:

“Para melhorar o seu desempenho, o professor deve permitir que o indivíduo utilize tabuada, calculadora, cadernos quadriculados e elaborar exercícios e provas com enunciados mais claros e diretos. Ainda pode estimular o indivíduo passando trabalhos de casa com exercícios repetitivos e cumulativos”. www.mundoeducacao.com.br/doencas/discalculia.htm

Sites esclarecedores que poderão ser visitados:
www.brasilescola.com/doencas/discalculia.htm
www.psicopedagogiabrasil.com.br/disturbios.htm

Sugestão de leitura:

GARCIA, Jesus Nicasio. Manual de Dificuldades de Aprendizagem – Linguagem, leitura, escrita e matemática. Artmed, 1998.