Assim como nossa visão física é limitada quanto ao ângulo e distância, nossa percepção mental também é. Ao ler estas palavras, seus olhos estão fixados nelas, contudo, o que está em volta de você, está fora de foco. Mas, se você se voltar para focalizar um objeto, é o texto que ficará fora de foco.

Na verdade, percebemos muito pouco sobre nós mesmos, sobre as pessoas e sobre a realidade. Um professor de Psiquiatria disse, certa vez, que nos tornamos aquilo que promove menos dor. O que isso quer dizer? Bem, o tipo de pessoa que você é, seu modo de estar inserido na realidade, sua capacidade de percepção das coisas, de como as pessoas são, de como a vida é, tem muito que ver com “arranjos” ou adaptações mentais voltadas para a defesa da dor mental.

Ao longo da vida, em função da genética (o que herdamos dos pais), do que vivenciamos ao longo da infância (com predomínio de prazer ou de desprazer) na família de origem, e de acordo com nossa vulnerabilidade e sensibilidade, nos tornamos o que somos hoje: mais fechados ou mais expansivos; mais rígidos ou mais flexíveis; mais ansiosos ou mais serenos; mais melancólicos ou mais alegres; mais agressivos ou mais mansos; mais mentirosos ou mais verdadeiros; mais manipuladores e controladores, ou mais livres e libertadores.

Então, você pode perguntar: mas que dor é essa da qual ao tentar me livrar, me tornei o que sou até agora? Se você acabou de se perguntar isso, parabéns! Seria ótimo se a maioria das pessoas pensasse nisso, ainda que de vez em quando, buscando com honestidade a resposta. Quem pensa nesse tipo de coisa tem mais chances de decidir com boa consciência, podendo construir algo de bom com a própria dor.

Mas, voltando à pergunta, essa dor é uma dor pessoal. Temos a tendência de colocar nos outros a culpa de nossa dor existencial. Sendo assim, dizemos para nós mesmos, e/ou brigamos com outras pessoas, dizendo: “Você é o culpado da minha dor (infelicidade)!”, “Arranjei outra pessoa porque você não me preenchia (não aliviava minha dor)”.

É duro admitir, mas ninguém pode resolver nossa dor pessoal. Porém, até que uma pessoa compreenda e aceite isso, ela pode fazer muita besteira, pode adoecer emocionalmente, tentar suicídio, se tornar dependente químico, se envolver em “casos” fora do casamento, se tornar compulsiva com comida, sexo, trabalho, compras, entre muitos outros comportamentos.

Quando você aperta o tubo de creme dental, seu consciente pode estar no próprio tubo e pensar: “Minha mulher (meu marido, meu pai, meu filho) costuma apertar de qualquer jeito esse tubo. O certo é apertar de baixo para cima”. Ou sua mente pode apertar o tubo automaticamente, colocando o creme na escova de dente, enquanto pensa: “Vou colocar o feijão no fogo”, ou “preciso telefonar para aquele cliente”, ou: ainda: “ih! amanhã tenho prova de matemática”.

Em um exemplo tão simples e corriqueiro, é possível observar como a mente de cada um está numa realidade, num foco diferente ainda que estejam realizando o mesmo ato. Quando não aceitamos isso, acabamos (mesmo que indiretamente) tentando forçar o outro a pensar como nós, a fazer as coisas como nós fazemos, a perceber as coisas como nós as percebemos. Mas isso não é possível, bem como não é o melhor, porque cada um percebe e entende o que pode, o que tem capacidade ou aptidão emocional nesse momento da vida. E isso não tem que ver com cultura, nem com inteligência. Antes, isso tem que ver com a capacidade de lidar com a dor pessoal.

Quanto melhor pudermos lidar com nosso vazio existencial, nossas carências, nossa dor, menos estresse provocaremos na vida conjugal, menos compulsivos por qualquer coisa seremos, e poderemos, assim, ter serenidade. Entretanto, fica difícil o relacionamento quando o outro não se interessa por pensar nessas coisas e quer continuar vivendo no automático, na defesa e no encolhimento de si mesmo. E também no ataque por meio de grosseria, autoritarismo, manipulação e dependência não saudável.

Da próxima vez que você apertar o tubo da pasta de dente, pare e pense: “Qual é a minha dor e o que posso fazer para aprender a lidar com ela de maneira que eu não perturbe as pessoas como se elas fossem responsáveis pela minha sanidade e bem-estar”?

 

Fonte: Revista Vida e Saúde – Junho 2014
Imagem: AlexOakenman / Fotolia