Qual o professor que nunca se deparou com alunos que, apesar de inteligentes, não conseguem aprender? Parece que essas crianças estão por detrás de uma parede de vidro, vendo o mundo passar, sem, contudo conseguir encontrar um significado para a vida. Aulas particulares, explicações repetidas, salas de reforço… Parece que nada surte efeito. Se não são deficientes mentais, por que não aprendem? Se depois de uma avaliação neuropsicológica e psicopedagógica não se constatar uma condição específica, seria interessante levantar a hipótese de um problema pouco conhecido: a Síndrome da Privação Cultural.

O que é a Síndrome da Privação Cultural?

Em termos práticos ela é a falta ou ausência da transmissão de três coisas imprescindíveis por parte da família à criança durante seu período de desenvolvimento:

  1. De conhecimento, valores e normas (cultura);
  2. Da identidade cultural (de onde eu vim, o que estou fazendo aqui, e para onde eu vou);
  3. Da mediação de aprendizagem.

Isso não acontece só em famílias de baixa renda, nas quais as mães precisam contribuir financeiramente para o sustento da casa, permanecendo mais tempo no trabalho do que com os filhos. Numa sociedade materialista como a nossa, o status é, muitas vezes, considerado mais importante que as relações familiares. Assim, a educação das crianças fica a cargo de babás. As famílias mais pobres, que não podem arcar com a despesa de uma babá, usam a televisão, a escola, ou a creche para educar seus filhos. Os pais, na realidade, não se consideram capazes de educar. E para não precisar lidar com isso, delegam essa função a terceiros.

Diante disso as crianças crescem sem parâmetros culturais e educacionais, tornando-se alvo fácil das dificuldades de aprendizagem.

VEJA ALGUNS EFEITOS DA SÍNDROME DA PRIVAÇÃO CULTURAL:

  • Dificuldade de leitura – percepção confusa e equivocada;
  • Destrezas verbais deficientes – vocabulário pequeno;
  • Incapacidade de perceber estímulos relevantes;
  • Falta de hábitos de trabalho – desorganização;
  • Dificuldade de análise e classificação;
  • Presente sem perspectivas;
  • Pouca sensibilidade ao intelectual e moral;
  • Baixas aspirações escolares;
  • Sujeito manipulável – com baixo senso crítico;
  • Baixo autocontrole do comportamento;
  • Baixa conduta exploratória – pouco curioso;
  • Falta de referencial cultural.

Para que o educador obtenha sucesso com crianças com baixo desempenho escolar, é imprescindível que ele acredite que elas são capazes de mudar e se desenvolver.

Feuerstein, em seu livro ainda não traduzido, Don’t accept me as I am (Não Me Aceite Como Eu Sou), Plenum Press – New York and London, páginas 5 a 7, apresenta um sistema de crenças que deve fundamentar a filosofia de trabalho de todo educador que busca o sucesso de seus educandos. Veja quais são elas:

1. Os seres humanos são modificáveis – Todo ser humano deve ser considerado como um sistema aberto, capaz de ser significativamente modificado pela intervenção do meio. Essa visão contrasta vigorosamente com a visão hereditária geral do potencial de realização que, em sua forma extrema, considera que o nível máximo de funcionamento do indivíduo é determinado unicamente por sua dotação genética.

2. O indivíduo que estou educando é modificável – A maneira como o indivíduo reage à intervenção pode levar o educador a considerar a modificabilidade como algo “não aplicável” à criança que está aos seus cuidados. Essa crença negativa pode impossibilitar as muitas atividades necessárias à obtenção da modificabilidade para se ativar e perseverar numa intervenção em longo prazo. É imperativo que, a despeito de experiências de fracasso, a crença do educador na modificabilidade humana seja forte e atribuída à criança em questão.

3. Tenho condições de modificar o indivíduo – Esta terceira proposição está relacionada com os sentimentos de adequação e competência do educador como uma força ativa e eficiente para promover a modificabilidade no estudante com o qual está lidando. Mesmo ao aderir à crença geral na modificabilidade humana e à modificabilidade de uma criança em particular, alguns educadores podem achar que a obtenção dos alvos individuais da modificabilidade estão além de suas próprias capacidades. Tal percepção de falta de competência pode causar uma reformulação no sistema geral de crenças do educador acerca da modificabilidade humana. Pode ser que seja a criança, em lugar do professor, a responsabilizada pela falta de progresso educacional. Paradoxalmente, o professor que se sente inadequado pode evitar encaminhar a criança a alguém que poderia ajudar, por não estar disposto a revelar sua incapacidade. Ocasionalmente, todo professor terá que buscar ajuda de algum outro profissional para uma de suas crianças, ou até encaminhá-la a um outro professor. Entretanto, se isso acontecer com muita frequência, particularmente depois de ter recebido treinamento adicional o professor deve considerar com firmeza a possibilidade de mudar de profissão.

4. Eu mesmo sou uma pessoa que pode – e deve – ser modificada. O pleno desenvolvimento profissional poderá ser alcançado quando o educador investir permanentemente em sua automodificação. Satisfação profissional é prejudicial ao processo de intervenção educacional, pois atenua as diferenças de uma criança para outra, desconsiderando suas capacidades e condições específicas, bem como muitos outros fatores socioculturais que dizem respeito a uma educação bem-sucedida. Quando falta ao educador a crença em sua própria modificabilidade, ele poderá, como resultado, exigir de maneira excessiva da criança com quem está trabalhando, que se adapte e, por sua vez, não estar pronto a se adaptar às necessidades dela.

5. A sociedade – e a opinião pública – são modificáveis e devem ser modificadas. O educador nem sempre encara a sociedade como um alvo legítimo para sua atividade educacional. A sociedade costuma ser considerada como o fator determinante, e não como um alvo para intervenção. Desejamos enfatizar que a modificabilidade do indivíduo passa pelo “filtro” das condições sociais. Modificabilidade de atitudes culturais, práticas e normas sociais, bem como de opinião pública é sempre um processo extenso. Mas todo educador deve considerar a sociedade como um de seus principais alvos de intervenção.

Essas cinco crenças devem ser mantidas em mente como um contexto para valorizar e compreender os conceitos básicos da Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural (MCE).

O interessante no livro Don’t accept me as I am é que Feuerstein salienta o fato de que mesmo pessoas com deficiência intelectual são candidatas à modificabilidade. Portanto, não há desculpas para se manter uma criança na condição em que chegou às nossas mãos. Dá trabalho, sim, mais do que gostaríamos que desse. Mas, vale à pena! Ela consegue se o educador acreditar nela e em si mesmo!

Voltando ao tema da privação cultural, que consiste na principal causa das dificuldades de aprendizagem em crianças e jovens sem comprometimento intelectual. Damos aqui algumas sugestões de trabalhos em classe, alguns deles envolvendo a família, a fim de estimulá-la a interagir com a criança, transmitindo-lhe sua história e a de seus antepassados, levando-a a se perceber como ser único e de valor:

Quem sou eu? – Fazer uma miniárvore genealógica (eu, meu pai, minha mãe, meus irmãos, meu avô paterno, meu avô materno, minha avó paterna, minha avó materna. Se ainda tiver bisavós, devem ser incluídos).

Este é meu avô (minha avó) – Levar para a classe o avô ou avó que tenha alguma coisa positiva e interessante para contar sobre sua vida e/ou a de seus antepassados.

Perguntando aos meus pais – Pedir que a criança leve para casa duas folhas de um questionário para cada pai responder, com as seguintes perguntas:

  1. Onde você nasceu?
  2. Como foi sua infância?
  3. Qual era sua brincadeira predileta?
  4. Você gostava de estudar?
  5. O que você queria ser quando crescesse?
  6. Você conseguiu realizar seu sonho?
  7. Se não conseguiu, por quê?
  8. Você se considera uma pessoa feliz hoje?
  9. Que conselho você me daria?

Orientá-la para entregar o questionário aos pais e trazer de volta com as respostas na aula seguinte. Pedir que leiam as respostas e discutam com a classe. Provavelmente haverá algumas crianças com problemas familiares que precisarão de mais atenção e compreensão. Caso tenham pais separados ou vivam em lares substitutos, reoriente as perguntas da maneira como achar mais conveniente para elas.

A foto mais antiga – Solicitar que a criança peça aos pais para fazer uma cópia da foto mais antiga de seus antepassados que eles possuírem. Avós, bisavós, tataravós. Ao trazerem a cópia da foto para a aula devem contar uma história interessante, positiva e verídica sobre o personagem.

Filmes de biografias de grandes homens do passado. Fazer um debate com o título: “Se ele tivesse sido meu ancestral, que diferença isso faria na minha vida?” (Para alunos de classes mais avançadas.)

Que coisas meus descentes dirão a meu respeito daqui a 100 anos? Debate para alunos de classes mais avançadas.
Trabalhando a questão da adoção. Contar as seguintes histórias:

1) Criação (Gênesis 1 e 2);
2) Queda do Homem (Gênesis 3);
3) Vida, Morte e Ressurreição de Cristo (Mateus 3:16; 1:18-24; Atos 10:36-43; João 19:17-19, 28-30; Mateus 28:2-7). Um tema para cada dia. Esta atividade pode ser realizada durante a época da Páscoa.

Aplicação:

a) Somos filhos de Deus pela Criação – Somos todos irmãos e filhos do mesmo Pai;
b) Satanás nos sequestrou – passamos a viver sob o domínio do pecado;
c) Deus enviou Seu Filho para pagar o resgate. Com Seu sangue, libertou-nos do poder do pecado e nos adotou como filhos. Agora somos filhos de Deus duas vezes: pela Criação e pela Redenção. Portanto, quem não tem família de sangue, tem um Pai maravilhoso no Céu que ama, cuida e protege os que O amam.

Professor, muito sucesso na sua missão de educar. E lembre-se: acredite em você para que possa acreditar em seus alunos!

 

REFERÊNCIAS:
DELVAL, Juan – Aprender a aprender – Papirus Editora, 1991.
BEYER, Hugo Otto – O fazer psicopedagógico – a abordagem de Reuven Feuerstein a partir de Piaget e Vygotscky – Editora Mediação, 1996.
FEUERSTEIN, Reuven – Don’t accept me as I am – helping “retarded” people to excel – Plenum Press, New York and London, 1998.
FONSECA, Vitor da – Educação especial – programa de estimulação precoce – uma Introdução às Idéias de Feuerstein – Artmed (Esgotado).