Com o objetivo de compreender a origem da violência, para podermos redirecionar nossos impulsos e não atacar os filhos, nem estes atacarem os netos, nem os netos atacarem os tataranetos, focalizo o conceito de violência. Para mim, a violência vinda dos pais ou entre eles é uma das mais chocantes disparidades porque vai contra tudo que se refere à esperança de bondade, justiça e verdade.

A violência choca porque é destrutiva, antissocial, irracional e prova de desconsideração total para com o outro. A violência choca porque mina a autoestima do violentado, contribuindo para a desvalorização e vergonha de si mesmo. A violência choca porque acaba com a dignidade da pessoa humana, reduzindo-a a simples objeto de exploração e abuso. Não é de estranhar que pessoas violentadas se acostumem à violência, ou se rebelem, acabando por recorrer a essa pratica para se comunicar, quando não conseguem fazer o que querem.

A pessoa violentada se identifica com o violento. Se isso acontecer, ela pode entrar em depressão, tornar-se apática ou caminhar para a alienação. Em vez de se identificar com o agressor, ela deve fazer uma identificação do violento. Se conseguir, pode descobrir formas de enfrentá-lo. Nessa busca, ela pode vencer a depressão, sair da apatia e evitar a alienação. Pode ir além e impedir sua inferiorização social.

NOÇÕES DE VIOLÊNCIA

Para facilitar a identificação do violento, para evitá-lo, ou achar uma saída para enfrentá-lo, é preciso saber:

  1. Violência é uma explosão de raiva que vence a razão. Nesse caso, o estado emocional do violento é mais poderoso do que seu controle racional. Ou seja, o sentimento domina o pensamento; o impulso sobrepuja a censura. O ID é mais forte que o Superego.
  2. Violência é a expressão física contra o outro, quando esgotam os recursos verbais. Quando a pessoa não tem mais argumentos para defender seus interesses, alcançar objetivos, ou obter o que deseja, ela recorre ao ataque físico; agride, para conseguir o que quer. É a expressão da raiva através de ataque corporal. Sai do nível da argumentação para o da manifestação muscular de força bruta. A força do argumento perde o valor e a força muscular toma seu lugar.
  3. Violência é um ataque físico contra o interlocutor quando as palavras não funcionam para provar sua importância, defender sua imagem ou impor seu valor. Usamos as palavras para manifestar nossas convicções. Através delas, confirmamos nosso valor, transmitimos a imagem que fazemos de nós mesmos e deixamos clara a importância que a nós atribuímos. Quando não se tem palavras, quando elas não são ouvidas ou quando não refletem a mensagem desejada, a pessoa recorre inadequadamente ao ataque físico.
  4. Violência é uma explosão para destruir aquilo que alguém julga ser contra a sua autoestima, o seu crescimento pessoal, sua evolução pessoal. É o uso da força física aplicada para ferir ou destruir pessoas, objetos e organizações. Não importa o que esteja no caminho, o objetivo é destruir. Pessoas, objetos ou coisas são vistos como barreiras que bloqueiam seus intentos e precisam ser eliminadas a qualquer preço. Nem os íntimos escapam. Parentes ou amigos, ninguém importa para o violento. O importante é o caminho estar livre, para que ele faça o que quer, independentemente do contexto, das circunstâncias, ou até mesmo da própria vida.
  5. Violência é o resultado de uma ação impensada, executada com o objetivo de intimidar o oponente e restabelecer o equilíbrio de poder entre os íntimos. Em toda relação humana há um equilíbrio de forças que precisa ser mantido. Pode ir desde uma disputa de poder, para definir a divisão de trabalho entre o homem e a mulher no lar, até o nome que vai aparecer primeiro no talão de cheques da conta conjunta. Isso com base no pressuposto de que já chegaram à conclusão de ter conta bancária conjunta. É uma questão de decisão, de mando, de controle, de competição, manipulação do outro.
  6. Violência é a consequência de fracassar em demonstrar com palavras, sentimentos, insatisfações e incompreensões É o fracasso das palavras, na busca de saídas para situações intrincadas. O sucesso da comunicação humana está na sua capacidade verbal que precisa ser transformada na habilidade de expressar o que se sente, incomoda ou frustra. É preciso desenvolver a habilidade de troca verbal, de negociação, de compromisso. Só assim serão possíveis a paz e a harmonia.

 

Resumindo os conceitos até aqui apresentados, podemos concluir que uma pessoa só recorre à violência quando se sente fracassada. Portanto, usar a violência é a manifestação do fracasso, ideia que o próprio Rollo May defende no livro Power And Innocence [Poder e Inocência]. Segundo ele, a violência é o resultado da impotência e da apatia. Há uma frase fantástica de Hanna Arendt, segundo a qual “a violência é a expressão da impotência”. O violento não deixa de ser um fraco, medroso, inseguro, vulnerável, que abusa da força física para esconder-se. Ele recorre aos músculos para esconder sua fragilidade.

A violência domina quando a raiva se torna agressão e explode sem controle da razão. As palavras falham, os argumentos fracassam para influenciar o outro. Sem força de influência verbal se recorre ao poder muscular. Usa-se a força física para mostrar um ponto de vista. Mas, essa é uma tentativa inútil porque está fadada ao fracasso em longo prazo. Mesmo que em curto prazo se leve vantagem, com o tempo se percebe sua inutilidade pelos resultados destrutivos.

Usar de violência para com os outros é uma discrepância chocante. Usá-la com os íntimos é uma discrepância cruel.

 

Fonte: Revista Vida e Saúde – Mar. 2008
Imagem: Aleutie / Fotolia