Quero chamar a atenção, desta vez, de pessoas que estão constantemente se depreciando. Não de um jeito falso, para manipular os outros, mas porque sentem realmente o que falam. São pessoas que não percebem suas características positivas e insistem em observar e demonstrar somente os traços negativos. Não há acertos para elas, apenas falhas. Ou, o mais grave ainda, pessoas que exageram nas deficiências e ocultam as próprias realizações. Fazem de um cravo um câncer.

Agindo assim, nos tornamos verdadeiros inimigos de nós mesmos, carregando pela vida um peso que incapacita a saúde mental adequada. São pessoas que vivem uma realidade, mas percebem outra totalmente oposta. É preciso compreender que a percepção da realidade é o fator número um para o bem-estar do ser humano. Mas para quem age assim, a realidade é horrível, sendo indesejável vê-la.

Outro dia, uma senhora de cinquenta anos, me disse: “Eu tinha uma ideia errada em relação aos psicólogos. Achei que vocês ajudavam a gente a ver o mundo colorido, ver todas as pessoas pelo seu lado bom.” De repente, ela mudou completamente o foco e disse: “É, mas me fez muito bem ver a realidade”.

O fato é que ela chegou há duas semanas com o rosto desfigurado. Após algumas sessões de terapia, o rosto parece transparecer alívio. O semblante se abriu. Ela mesma reconheceu: “O senhor percebeu que eu melhorei?” Então, respondi: “Claro! Os olhos e a face não mentem”. Espero que daqui para frente ela interrompa o processo de prejudicar a própria vida com sua autocrítica preconceituosa, se boicotando o tempo todo.

JEITO DE SER CRUEL
Quando uma pessoa está sendo cruel consigo mesma, cria uma situação que dificulta o relacionamento, porque ela pode falar demais, esperar demais e até exigir demais dos outros. Claro que tudo ocorre porque ela não ouve as coisas boas, não se alimenta emocionalmente e está em constante estado de fome emocional. Por mais que o outro dê, ela não recebe. Gosta no primeiro momento, mas em seguida desvaloriza a dádiva recebida, quer seja um presente, ou um elogio.

Você pode ser cruel consigo mesmo de várias maneiras: raiva de não fazer o que deve; culpa de não fazer o que deve; medo de as pessoas descobrirem quem você realmente é; vergonha de ser olhado porque está sempre se diminuindo; tristeza por não poder ser o que fantasia ser, etc. Há uma infinidade de sentimentos que alimentam seus pensamentos quanto ao seu valor como pessoa.

É bom notar que são sentimentos e não fatos, portanto eles são subjetivos, e podem estar distorcidos e muito distantes dos fatos reais. Quando se é cruel consigo mesmo, alguém se torna um empecilho para sua vida. Você se prejudica, se atrapalha, serve de tropeço para si mesmo. Às vezes, você aprende a fazer o que não deve como se fosse o caminho certo. Então, é preciso aprender a parar de fazer o que não deve para então aprender a fazer o que deve ser feito. Há momentos em que o melhor é parar e não fazer nada, aguardar um pouco enquanto a a opção adequada é descoberta.

Creio que a opção mais propícia é aquela que contribui para o bem-estar em longo prazo, para o crescimento pessoal e para o aperfeiçoamento contínuo como ser humano. Não aquela opção que recrimina, culpa, condena, critica, pune repetida e continuamente. Pare, pense, avalie e mude. Seu futuro é de crescimento, não de regressão. Veja a seguir, algumas opções que são altamente destrutivas para seu respeito próprio e respeito pelos outros:

AUTOCRÍTICA NEGATIVA
Deve-se reconhecer que a autocrítica pode ser usada para o bem quando contribui para uma compreensão maior de si e do mundo. Nesse caso, ela é construtiva e encaminha rumo ao conhecimento e à verdade. É uma avaliação implícita para melhorar, para buscar as habilidades, para se voltar para os alvos propostos e corrigir erros cometidos. Dessa forma, a autocrítica pode ser uma excelente contribuição para aperfeiçoar o caráter.

Mas, quando a autocrítica é negativa, seu resultado é acabar com você. Entre as muitas manifestações dela estão os sentimentos de fracasso, de vergonha de si mesmo, de culpa e até de depressão. É um grande prejuízo para a autoestima. No entender de Leslie S. Greenderg, em seu livro Working with Emotions in Psychoterapy (Trabalhando com emoções em Psicoterapia – tradução livre), a autocrítica negativa é causada por uma raiva secundária dirigida contra si mesmo, em que a pessoa se despreza e se denigre por limitações, imperfeições, falhas, comportamentos inaceitáveis ou experiências emocionais.

A raiva secundária é aprendida para substituir outra emoção primária e direta. A raiva secundária evolui para rejeição e hostilidade de si mesmo. Ela machuca muito e dói intensamente em quem a cultiva. A autocrítica negativa é implacável porque, mesmo que você lide adequadamente com a situação, desempenhando, por exemplo, uma tarefa satisfatoriamente e recebendo elogios dos outros, ainda mantém sua crítica implacável contra si mesmo. Ela é típica dos perfeccionistas que lutam neuroticamente pela perfeição, mas nunca chegam lá. Eles direcionam todo seu esforço na direção errada. Olham para a derrota e não para a vitória, para as falhas e não para os acertos.

Quanto mais “fracassam”, mais elevam os padrões que se tornam inatingíveis. Ficam cegos por tantos detalhes que não conseguem enxergar o valor e a importância do todo. Imobilizados pelo medo do que os outros vão pensar, a necessidade de aprovação do outro é tão grande que cria um temor de ser descobertos e os afasta de relacionamentos saudáveis. Diante disso, ficam tão presos em si que monitoram o comportamento todo o tempo.

AVALIAÇÃO EQUIVOCADA
Sua atenção fica neles mesmos 24 horas por dia. Esquecem-se de que pensar demais em si mesmo não faz bem para a saúde mental, principalmente se o pensamento for uma autocrítica negativa. É bom lembrar também que, por mais que você se critique para se proteger da crítica

dos outros, isso não vai acontecer. Você será criticado, não importa o que faça. Até por se criticar você será criticado. Portanto, relaxe e deixe os outros criticarem, falarem o que quiserem.

A autocrítica negativa é um sinal de que você está fazendo uma avaliação preconceituosa de si mesmo. É uma avaliação enviesada, contaminada, do que você realmente é. É o indício de que está andando pelo caminho errado porque o fim dele é a autodestruição. Ela não é uma crítica pontual para corrigir o que precisa, mas sim uma caça interminável de defeitos e falhas, na busca de responsabilidades por eventos que não lhe competem e estão fora de sua alçada.

Uma pessoa assim pode chegar ao ponto de sofrer por fatalidades que não têm o mínimo poder de controlar. É o caso típico de uma pessoa que viaja para o exterior. O pai, a mãe ou a filha morre, e ela não consegue voltar em tempo para o sepultamento. Passa o resto da vida se culpando, ruminando, se condenando pela viagem. Acha que foi sua falha. Mas que falha? Ninguém tem controle sobre quando alguém vai ou não morrer!

Pense também numa pessoa que não se prepara para um exame qualquer e é reprovada. Fica arrasada em vez de ser realista, se preparar melhor e refazer o exame. Em vez disso, desiste do curso ou da carreira, e passa o resto da vida se criticando e se cobrando por uma dívida que nunca poderá pagar.

Na crueldade consigo mesmo, começando pela autocrítica, você se torna seu próprio acusador e a testemunha contra si mesmo. Faz de si um vilão que precisa ser punido para aprender a lição. Só que não importa o castigo imposto a si, a lição nunca é aprendida e o castigo nunca tem fim. É para a vida toda. Diante da acusação não há realização nem qualidade que diminua a pena, que seja percebida como superando o desejo de vingança de si mesmo. Não existe defesa possível. É impressionante como alguém pode ser capaz de se acusar, condenar e punir interminavelmente. Quanta raiva dirigida a si mesmo!

DA AUTOCRÍTICA À AUTODESTRUIÇÃO
Da punição é fácil partir para a autodestruição, quando você se encarrega de insistir num quadro negativo e depreciativo de si mesmo, quando não aceita nenhum tipo de manifestação agradável ou bondosa demonstrada em seu favor. E o que mais necessita: reconhecimento positivo. Mas além de não receber, não aceita, não se considera merecedor nem digno de qualquer indício de importância.

Você se considera no fundo do poço e parece que insiste em ficar lá. Por isso é muito comum se afundar nas drogas, no álcool, na promiscuidade sexual. É como se você se abominasse. Você se destrói para se vingar de quem o feriu no passado, mas você é quem acaba sendo destruído.

Da autodestruição você pode evoluir para a automutilação. Ela acontece quando você, por iniciativa própria, provoca agressões ao seu corpo sem a intenção de morrer. O objetivo é só punir. Punir você mesmo por raiva, culpa ou vergonha. Punir o outro por ter abusado de você. É uma tentativa de alcançar alívio interior. Você causa uma dor na tentativa de aliviar outra. O que se deseja, muitas vezes, é se vingar do outro, procurando demonstrar: “Viu o que você me obrigou a fazer?” Pode ser também para obrigar o outro a cuidar de você ou a ficar com você.

No processo de crueldade contra si mesmo, uma coisa que não é percebida por falta de sensibilidade é a preocupação, o sofrimento, a angústia emocional de quem convive com você e o ama.

JOGUE EM SEU FAVOR
Não importa aonde você se encaixa no processo de jogar contra si mesmo, mas uma coisa é certa: você precisa aprender a jogar em seu favor. Você pode começar a lidar aos poucos com sua impulsividade, seu vazio, sua solidão, seu estresse interpessoal. Em seguida, passar a compreender que não é tão abominável quanto pensa. Procure descobrir que, apesar de se sentir imprestável, você possui vários atributos positivos. Procure expô-los em vez de escondê-los.

Pare de desconsiderar as coisas boas que as pessoas dizem a seu respeito. Lembre-se de que tem o direito de sentir raiva, medo ou qualquer outro sentimento negativo em relação às pessoas que você ama. Valorize seus traços, atributos e características humanas. Interrompa o processo presunçoso de sua “desgraça”, achando que é o único no mundo a passar por isso. Faz bem pensar que erros, derrotas ou tropeços são cometidos por todos. A ruína está em abraçá-los e não largar mais. Tente praticar o que sabe. Você também merece e pode ser feliz, apesar de todos os infortúnios do passado. Não se esqueça de que o importante é o futuro e que ele começa agora! O passado, literalmente, já era.

Portanto, saia do círculo vicioso da autocrítica, da autodestruição e da autocrueldade. Este é um círculo derrotista. Tenha um pouco mais de objetividade e concretude na avaliação de si mesmo. Interrompa a irracionalidade de sua atitude. Desafie sua linha de pensamento autorrecriminatório. Ouça uma voz gritando dentro de você pela melhora e pelo crescimento. Ela está lá constantemente. Não só a ouça, mas a obedeça. Isso lhe fará muito bem. Boa sorte na tentativa!

 

Revista Vida e Saúde / Julho de 2014.
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