Em maio de 2011, o norte-americano Erik Weihenmayer, conduzido por amigos e amarrado por cordas, saltou fendas literalmente no escuro para se tornar o primeiro cego a completar a subida à montanha mais alta da Terra, o Everest. Essa façanha espalhou estímulos e desafiou outros cegos a aspirarem ao mesmo feito. Sua conquista possivelmente proporcionou a ele sensações mais intensas do que as vividas por montanhistas não cegos. Ele não enxergou a montanha, não viu o branco absoluto da neve a seus pés, nem visualizou a camada de nuvens abaixo dele, ou contemplou as dimensões dos demais picos menores da cordilheira. No entanto, ele percebeu com seus demais sentidos a imponência da montanha e a grandeza daquele território então conquistado, inacessível para a maioria dos habitantes do planeta.

Enxergar os lugares é apenas parte de conhecê-los, captá-los com todos os nossos sentidos, tomar posse deles, inserir-se neles. Por isso, paisagem, território e lugar são alguns conceitos que a geografia utiliza para expressar a forma como os seres humanos podem perceber, compreender e relacionar-se consciente e intencionalmente com os espaços.

A verdade é que grande número de pessoas “conhecem” durante a sua vida muitos espaços diferentes, mas não apreendem seus múltiplos sentidos. Tais sujeitos nunca chegam de fato a conviver e interagir com tal espaço. E, por não entendê-lo, não percebem com inteligência todas as suas dimensões físicas e humanas.

A escola tem, nesse contexto, a função de desenvolver uma percepção específica, tecnicamente orientada para que o sujeito reconheça os objetos naturais ou culturais, seu distinto posicionamento no espaço, as interações entre eles, o mundo e os seres humanos – agentes responsáveis pelos arranjos espaciais.

Olhar geografico

A cartografia é uma linguagem em código, como a musical ou a matemática, que expressa informações em símbolos, aos quais é atribuído um significado. A decifração desses códigos ou símbolos implica uma alfabetização geográfica. A alfabetização cartográfica é tão importante na leitura e interpretação do mundo quanto é a leitura, a interpretação e a escrita na língua materna ou em qualquer outra área do conhecimento.

Alfabetização cartográfica nos anos iniciais

Percepção espacial

Ao chegar à escola, a criança tem um entendimento do mundo que se baseia no senso comum. No entanto, esse conhecimento é o ponto de partida para o professor dar prosseguimento ao processo de percepção e apreensão espacial.

Linguagem cartográfica

Aprender a linguagem dos mapas contribuirá para que a criança desenvolva autonomia na compreensão dos fenômenos naturais e sociais que ocorrem no mundo.

Elementos presentes em um mapa

Será necessário que a criança aprenda a identificar o conjunto de técnicas e elementos presentes nos mapas (legenda, orientação pela rosa dos ventos, escala, coordenadas geográficas, projeção).

Representações espaciais

As noções cartográficas são construídas passo a passo, em todos os anos escolares, concretizando todas as situações possíveis e representações do espaço como desenhos, maquetes, jogos, imagens, observações em campo, plantas e mapas mais elaborados.

Espaço geográfico

Ao compreender o espaço geográfico, o sujeito é capaz de apreender os problemas do espaço e ao mesmo tempo conseguir pensar as possíveis transformações para ele a fim de torná-lo melhor, mais justo, mais humano, mais fisicamente adequado e mais saudável aos seus ocupantes, sejam eles seres humanos ou outras formas de vida.

Construção de conceitos

Construir conceitos (como descobrir a relação existente entre a Terra e o Sol ou conhecer as direções cardeais por meio da rosa dos ventos) é simples, porém inesquecível. Será difícil que o aluno se esqueça da descoberta do leste, ou nascente, ao observar sua própria sombra projetar-se no chão, pela manhã, na direção oposta ao nascer do Sol.

 

As competências e habilidades exigidas dos estudantes no Enem para a área de Ciências Humanas são igualmente importantes para a vida de cada cidadão. Elas referem-se ao domínio de linguagens, compreensão de fenômenos, enfrentamento e resolução de situações-problema, capacidade de argumentação e elaboração de propostas referentes ao espaço geográfico. Você, professor que ensina Geografia, é o profissional apto para apontar os caminhos que conduzirão os alunos a uma compreensão mais plena do mundo, a uma percepção além do mero olhar, a uma análise mais profunda do que veem e, finalmente, a uma ação consciente sobre seus espaços de vivência ou até mais longe, dependendo da sua profissão no futuro, e sua esfera de influência.

Abra as janelas da sua sala para o mundo e junto com os alunos descubra-o no visual de cada paisagem, reconheça-o em textos literários, desvende seus mistérios em documentários, decifre-o em mapas de todos os tipos, e, finalmente, perceba-o com todos os sentidos. O seu hábil olhar geográfico lhe mostrará um mundo novo, e não tão complicado de entender.

 

 

Referências
ALMEIDA, Rosangela Doin de. Do desenho ao mapa: iniciação cartográfica na escola. São Paulo: Contexto, 2001.
_______; PASSINI, Elza Yasuko. O espaço geográfico: ensino e representação. 15. Ed. São Paulo: Contexto, 2008.
BRASIL. Encceja. Brasília: Inep, 2014. Disponível em: <http://portal.inep.gov.br/web/encceja/encceja>. Acesso em: 10 jun. 2014.
_______. Matriz de competências e habilidades. Brasília: Inep, 2011. Disponível em: <http://portal.inep.gov.br/web/encceja/matriz-de-competencias>. Acesso em: 10 jun. 2014.
CALLAI, Helena Copetti. Estudar o lugar para compreender o mundo. In: CASTROGIOVANNI, A. C.
(Org.). Ensino de Geografia: práticas e textualizações no cotidiano. Porto Alegre: Mediação, 2000. p.83-92.
Imagem: Pressmaster / Fotolia
Fonte: Revista CPB Educacional – 2º semestre 2014.