Ao longo de 18 anos lecionando Química participei de inúmeras formaturas do 3º ano do Ensino Médio. Esse momento sempre me suscitou a reflexão: o que esses alunos que estiveram comigo por três longos anos, sendo objeto do meu esforço, consumindo minhas energias até a “última gota”, estão levando dessa matéria tão “importante para a vida deles”? A resposta para essa pergunta algumas vezes me conduzia à outra questão: “Onde foi que eu errei?”

No processo de ensino–aprendizagem, se não houve aprendizagem, não houve ensino, não importa quanto esforço e energia tenham sido consumidos! Ensinar sempre foi um grande desafio e nos dias atuais parece que o desafio cresceu ainda mais. Hoje, com a internet, a informação e o conhecimento estão disponíveis a quase todos. O professor concorre com instrumentos que disponibilizam aos alunos a informação atualizada a respeito de qualquer tema, inclusive sendo apresentada por inúmeros outros professores.

O que fazer, então? Como contribuir de forma significativa para que o aluno se aproprie do conhecimento, tão disponível atualmente? A seguir, apresentamos três dentre muitas outras habilidades intelectuais que podem ser desenvolvidas a fim de tornar os alunos mais aptos para aprender e ser mais criativos.

 

1. Desenvolver a observação

O conhecimento é adquirido por meio da observação, da atenção dedicada ao que é visto, ouvido, tocado, cheirado, saboreado ou sentido.

A química pode ser denominada a “ciência do invisível”, e como acessar o invisível senão com a imaginação? Muitos dos conceitos químicos envolvem elevado grau de abstração e o aluno precisa ser capaz de imaginar como os fenômenos acontecem. Sendo assim, é fundamental que eles sejam estimulados a imaginar.

Os alunos precisam ser treinados a observar. Inúmeros fenômenos estão ocorrendo o tempo todo ao nosso redor e podem ser utilizados para desenvolver a capacidade de observar. Por exemplo: se cair água em uma folha de papel, você pode utilizar esse simples e corriqueiro evento como objeto de estudo. A respeito dele o professor pode perguntar: por que o papel molhado rasga mais facilmente do que o papel seco? Esse tipo de questão chama a atenção do aluno para refletir sobre algo interessante a respeito do que ele provavelmente nunca havia parado para pensar. Da mesma forma, muitas outras questões podem ser levantadas em relação a uma infinidade de eventos cotidianos com o propósito de desenvolver no aluno a capacidade de observar.

Podem ser sugeridas atividades em que o aluno tenha que fazer a descrição de um objeto, de um poema, de uma obra de arte, de uma pessoa, de um ambiente, etc. Por exemplo: analisar objetos utilizando o tato e o olfato estando de olhos vendados; reconstruir o que está acontecendo nas proximidades apenas por meio do som. Essas atividades podem ser propostas por professores de outras disciplinas também. Para fazer uma boa descrição é imprescindível uma boa observação.

2. Desenvolver a capacidade de abstração

Abstrair é captar o sublime do trivial, ou seja, captar a essência, o mais importante, o mais relevante daquilo que é observado. Assim, abstrações são simplificações feitas quando se enxerga com a mente. É a percepção das características mais importantes de algo ou sobre algo.

As teorias científicas são simplificações poderosas feitas por mentes perspicazes, mas não precisamos sugerir abstrações sobre complexos temas de física. Podemos sugerir que os alunos abstraiam palavras ou ideias como amor, honra, paz, dever, etc., ou pessoas, objetos, ambientes (pode ser a própria sala de aula).

A diferença entre a observação e a abstração é que ao abstrair eu escolho entre todas as observações aquelas mais relevantes para caracterizar ou descrever o objeto de estudo. Sendo assim, resumos, sinopses, mapas conceituais, caricaturas, entre outras, são atividades que estimulam essa habilidade.

3. Estabelecer analogias

O saber envolve muitos “mundos” inacessíveis aos nossos sentidos e até mesmo aos mais poderosos instrumentos disponíveis atualmente. São mundos que vão do núcleo atômico aos confins do Universo. Para esclarecer os eventos que acontecem nesses “mundos inacessíveis” um instrumento imaginativo bastante eficiente pode ser a analogia.

Analogia é a comparação, que serve para explicar o desconhecido com base no conhecido. Assim, pode-se comparar o funcionamento das enzimas com o sistema chave e fechadura; a ação dos catalizadores com um túnel através de uma montanha; os elétrons em um átomo com o Sistema Solar ou um pudim de ameixas; o Universo em expansão com uma bexiga sendo enchida de ar; etc. Mas como desenvolver essa importante habilidade mental?

A habilidade de comparar pode ser utilizada desde os primeiros anos de vida de uma criança com perguntas do tipo “isso se parece com o que?” ou “o que isso nos lembra?”, até chegar ao ponto de pedir ao jovem que dê sua explicação sobre como é o átomo ou como são os buracos negros.

Dar às crianças blocos, cabos de vassoura, bonecas simples, papéis, pedaços de pano e artigos domésticos variados para serem usados como brinquedos, em diferentes cenários, de acordo com sua imaginação, estimula a criatividade. Um cabo de vassoura pode se transformar em um cavalo. Um bloco de madeira pode ser desde um prédio até um dinossauro. Um pedaço de pano pode ser uma bandeira, e no instante seguinte, um rio tortuoso. A leitura de poesias e a apreciação de obras de arte também são ações poderosas para esse fim. As poesias, assim como as demais obras, são poderosas metáforas que possibilitam o estabelecimento de ligações analógicas entre o conhecido e o desconhecido, com associações emocionais e intelectuais. Em qualquer desses casos as analogias são feitas e a criatividade é estimulada.

Para que um aluno seja estimulado, o professor precisa planejar aulas criativas que incluam no ensino os três itens descritos, preparando aulas que partam do concreto para o abstrato e que despertem o interesse, mas, acima de tudo, nunca perca a paixão por ensinar.

 

 

Imagem: sababa66 / Fotolia
Fonte: Revista CPB Educacional – 1º semestre 2015