Erico Verissimo desempenha um papel à parte no cenário das letras brasileiras. Sua literatura nunca esqueceu a medida do público a que se dirigia, atitude rara em tempos que não consideravam o leitor como peça essencial do sistema literário.

Considerado um dos mais importantes e famosos escritores brasileiros do século XX, “Erico Verissimo é um romancista popular, um dos mais populares da história brasileira”1. Tido como um verdadeiro romancista de costumes2, produziu uma obra vasta e variada, desenvolvida em diversos gêneros como o conto, a literatura infantil, a narrativa de viagem, a biografia, o romance, o ensaio e as memórias. Sua obra foi transposta com sucesso para as telas de cinema e também para a televisão no formato de novelas e minisséries.

Seu filho Luis Fernando assim descreveu a importância literária de seu pai: “Foi um dos primeiros a fazer literatura urbana no Brasil, a preferir o despojamento anglo-saxão à empolgação ibérica e francesa e a escrever com informalidade que não excluía a experiência com estilos e técnicas de narrativa. Talvez nenhum outro escritor brasileiro do seu tempo fosse tão bem informado sobre a teoria do romance, embora se definisse como apenas um contador de histórias”3.

Erico Lopes Verissimo nasceu na cidade gaúcha de Cruz Alta, em 17 de dezembro de 1905, filho do casal Sebastião Verissimo da Fonseca e Abegahy Lopes Verissimo, ambos descendentes de portugueses. Aos 13 anos entrou em contato com a obra literária de Aluísio Azevedo, Coelho Neto, Eça de Queirós, Fiódor Dostoiévski, Walter Scott e Émile Zola. Em 1920 ingressou no Colégio Cruzeiro do Sul, de orientação protestante, em Porto Alegre, saindo-se bem nas aulas de Bíblia, literatura e idiomas. No ano seguinte seus pais se separaram.

Em 1929 fez sua estreia literária com a publicação de alguns contos, sendo que a partir do ano seguinte, com a falência de sua farmácia, transferiu-se definitivamente com a família para Porto Alegre, com o objetivo de viver da literatura, tornando-se secretário de redação da Revista do Globo.

Casou-se com Mafalda Halfen von Volpe, com quem teve os filhos Clarissa e Luis Fernando. Publicou seu primeiro livro de contos em 1932 (Fantoches), e seu primeiro romance (Clarissa) no ano seguinte.

Em 1938 obteve seu primeiro grande sucesso de público com o lançamento de Olhai os lírios do campo, aliviando, com isso, os problemas financeiros da família. O livro marcou seu reconhecimento artístico no Brasil e em seguida no cenário internacional. Dedicou-se também à literatura infantil com a publicação de As aventuras do avião vermelho, O urso com música na barriga, As aventuras de Tibicuera e outras histórias.

Erico Verissimo trabalhou também nos Estados Unidos em três ocasiões distintas como palestrante, professor e diretor de uma secretaria de assuntos culturais da Organização dos Estados Americanos. Sua estada fora do Brasil resultou em algumas narrativas de viagens como Gato preto em campo de neve e A volta do gato preto.

Em 1947 iniciou a escrita da trilogia O tempo e o vento, sua obra mais importante, que levou 13 anos para ser concluída. Composta pelos romances O continente (1949), O retrato (1951) e O arquipélago (1962), a obra busca relatar a história do Rio Grande do Sul desde suas origens missioneiras a partir de 1745 até a deposição de Getúlio Vargas, em 1945. Planejada originalmente para ter 800 páginas, chegou a ter 2.740 páginas, divididas em sete volumes. “O tempo e o vento inclui-se na vertente do romance histórico que, partindo do passado, atualiza o presente para seus contemporâneos numa posição crítica que une mito e realidade”4. É uma obra ambiciosa e gigante, tanto na quantidade de páginas, quanto na ação dramática de seus ricos personagens. “Em O tempo e o vento não se sabe o que é mais espantoso, a ambição do autor ou o fato de que conseguiu realizá-la”5.

Outros livros importantes foram O senhor embaixador, ambientado em um país imaginário do Caribe, mas com características que nos fazem lembrar a ilha de Cuba, e principalmente Incidente em Antares, que faz uma crítica ao regime autoritário da ditadura civil-militar de 1964. Quando estava concluindo o segundo volume de suas memórias, Solo de clarineta, veio a falecer subitamente, em 28 de novembro de 1975.

A respeito de sua obra literária, Antonio Candido assim se manifestou: “Erico Verissimo é um autor irregular e cheio de decaídas, sobretudo na tonalidade geral da sua visão, mas apesar disso é um grande escritor”6. Falando, porém, de seus aspectos positivos, Candido destaca três pontos: “a simplicidade expressiva de sua prosa… a sua capacidade de inserir bem o tempo na estrutura literária… [e] a capacidade de se tornar convincente tanto para o leitor culto quanto para o leitor mais simples”7.

Foi criticado por manter uma postura não agressiva quanto às arbitrariedades do governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), sendo considerado “acomodado” pelos intelectuais de esquerda, como que vivendo em “uma torre de marfim”, como “um escritor alienado”. Na verdade, ele recusava a literatura panfletária. Seus livros, no entanto, indicam suas ideias humanistas, democráticas e liberais. Um liberalismo com preocupações sociais. Suas críticas ao socialismo leninista-stalinista, porém, se demonstraram adequadas com o passar do tempo.

Era de temperamento introspectivo, quase taciturno. Como homem, se dizia avesso a honrarias e homenagens. “Não quero e não hei de me candidatar à Academia Brasileira de Letras. Não tenho o menor apreço por títulos e condecorações”8. Gostava dos amigos e da família. Em entrevista a Jorge Andrade, demonstrou contrariedade por ser considerado pela crítica literária um escritor menor. “Posso ser menor num plano internacional, mas não no nacional”9.

A maioria da crítica, porém, hoje reconhece sua importância artística. “Erico Verissimo desempenha um papel à parte no cenário das letras brasileiras. Sua literatura nunca esqueceu a medida do público a que se dirigia, atitude rara em tempos que não consideravam o leitor como peça essencial do sistema literário. Essa preocupação em dialogar com o público, numa troca simétrica de visões da realidade e de prospecções do que esta poderia se tornar, valeu-lhe a etiqueta de autor concessivo, escritor menor, mas não o demoveu, ao longo da vida, de continuar o diálogo de modo a ser entendido o menos discriminadamente possível”10.

Erico Verissimo soube auscultar o interior de seus leitores, mantendo durante toda a sua carreira um diálogo fecundo com eles, que se refletiu na venda de seus livros. Afirmava não ser seu autor favorito, mas foi durante décadas um dos raros escritores brasileiros a viver de seu ofício.

Um de seus grandes méritos foi ter revelado o sul do Brasil aos brasileiros, sendo o responsável pela escrita do maior romance histórico de nossa literatura verde-amarela. O tempo e o vento pode ser colocado ao lado de outros grandes painéis literários como Guerra e paz, de Liev Tolstói e Os miseráveis, de Victor Hugo. Sua ficção apresenta uma cosmovisão perpassada de valores estéticos, éticos e morais, adotando uma relação argumentativa com a sociedade, com o objetivo de não apenas descrevê-la, mas também transformá-la.

Erico Verissimo deixou uma obra significativa, que nem o tempo nem o vento podem levar.

 

 

Referências
1 LUCAS, Fábio. Ética e estética de Erico Verissimo. Porto Alegre: Editora AGE, 2006. p. 14.
2 CANDIDO, Antonio. Brigada ligeira. Rio de Janeiro:Ouro sobre Azul, 2011. p. 71.
3 VERISSIMO, Luis Fernando. In: GONÇALVES, Robson P. (Org.). O tempo e o vento: 50 anos. Bauru: Edusc, 2000. p. 22.
4 GONÇALVES, Robson P. (Org.). O tempo e o vento: 50 anos. Bauru: Edusc, 2000. p. 9.
5 VERISSIMO, Luis Fernando. op. cit. p. 22.
6 CANDIDO, Antonio. In: PESAVENTO, Sandra J. et al. Erico Verissimo: o romance da história. São Paulo: Nova Alexandria, 2001. p. 15.
7 Idem, p. 14.
8 VERISSIMO, Erico. Um escritor diante do espelho. Revista Realidade, v. 1, n. 8, São Paulo, nov. 1966.
9 ANDRADE, Jorge. A liberdade será sempre a minha causa. Revista Realidade, v. 6, n. 71, São Paulo, fev. 1972.
10 BORDINI, Maria da Glória. Do moderno ao pós-moderno. In: INSTITUTO MOREIRA SALLES. Cadernos de Literatura brasileira: Erico Verissimo. n. 16. São Paulo, p. 142.
Fonte: Revista CPB Educacional – 1º semestre 2015