O uso da tecnologia digital na educação já é uma prática em muitas escolas e está bastante difundido em todo espaço cibernético. Ensinar a famosa geração Z, que nasceu em meio a clicks, informações ultra, megarrápidas e explicações de tudo ou quase tudo, já é um grande desafio para nós, professores que viemos de uma geração emergente de tecnologia, a geração Y, que conviveu com a tela verde do MS-DOS, com a internet discada, a falta de informações, quando uma biblioteca física era a companheira de todos os dias dos estudantes. Migrar para esse patamar atual de ensino é, no mínimo, desafiador, mas que vale muito a pena para você, amigo professor, que deseja continuar focado na continuidade de uma aula eficaz e que prenda a atenção desse novo aluno.

Desde cedo me interessei pela área de matemática. Ao fazer licenciatura, anos depois, começaram os desafios e as indagações sobre como atrair a atenção de meus alunos e responder perguntas como: Onde aplico isso em minha vida? O uso de calculadora é permitido? Como permitir o uso de smartphones nas aulas de Matemática? A internet e o uso de redes sociais em sala de aula atrapalham a aprendizagem? Como alavancar o interesse pela disciplina tão temida usando as tecnologias como mola propulsora? Essas perguntas soavam como um martelo em minha mente toda vez que entrava na sala de aula, mesmo sabendo que não existiam respostas tão óbvias e que havia uma série de fatores relevantes que precisavam ser considerados antes de respondê-las.

Foi a partir dessas inquietações que surgiu dentro de mim o “professor-investigador”. Como sempre gostei de tecnologia, comecei a pesquisar sobre o uso das TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) na educação, pois tinha certeza que seriam uma excelente ferramenta para auxiliar no ensino–aprendizagem e me ajudariam nessa incansável busca. Em 2014, conheci, pela Fundação Lemann, durante um treinamento, a Plataforma Educacional Digital Khan Academy, que mudou meu conceito da forma elementar de ensinar e me abriu um novo horizonte ao ver como a tecnologia se tornou mais interessante e motivadora para meus alunos com a utilização de plataformas gamificadas.

De acordo com o fundador da plataforma, Salman Khan, “o uso da tecnologia, de forma um tanto irônica, tornou a relação em sala de aula, tradicionalmente passiva, em algo muito mais humano e interativo”. A Plataforma Khan Academy é um recurso muito flexível e possível de ser integrado no processo de aprendizagem mesmo que o uso não aconteça no espaço da sala de aula. Portanto, se você está em uma instituição que não tem computadores para todos os alunos ou não tem internet disponível, ainda assim é possível utilizá-la.

Foi a partir dessa perspectiva que começou minha experiência com essa tecnologia. Logo no primeiro módulo do fascículo de Matemática, apresentei a plataforma para meus alunos do Ensino Médio e registrei nela todas as minhas turmas. O sistema gerou um código para cada uma delas, de modo que, quando os alunos acessaram a plataforma e inseriram esse código, foram automaticamente colocados sob a minha tutela. Ao mesmo tempo, eu fui informado a respeito de cada aluno que acessou a plataforma, para quem meu nome apareceu como tutor.

Durante o estudo da primeira unidade do material didático, passei apenas duas missões para que eles pudessem se familiarizar com o novo recurso. Ao fim daquela unidade, gerei os relatórios da participação e aprendizado de cada um. Para minha surpresa, muitos alunos além de fazer as atividades propostas, avançaram pela plataforma e aprenderam conteúdos que estavam além do que havia sido programado para o bimestre. Com isso, eles participaram do programa de incentivo da plataforma: ganharam pontos de energia, conquistaram medalhas (asteroides, planetas, Lua, Sol, etc.) e mudaram seus personagens de identificação.

No segundo módulo do Sistema Inter@tivo de Ensino, como eles estavam empolgados em estudar mais, planejei passar semanalmente os desafios dos conteúdos estudados, fazendo um link com os exercícios do módulo e os pedidos na plataforma on-line. Foi um sucesso! Por meio de um trabalho conjunto com a coordenação pedagógica e orientação educacional do colégio, pudemos fazer um acompanhamento quase individual dos alunos, analisando cerca de oito relatórios gerados pela plataforma em tempo real. É possível verificar, entre outras coisas, quantos exercícios o aluno realizou, se usou dicas e vídeos ou se conseguiu resolvê-los sem ajuda. Khan Academy classifica os alunos de acordo com o seu patamar no processo de aprendizagem, usando as expressões: “Com dificuldade”, “Precisa praticar”, “Praticado”, “Nível 1”, Nível 2”, “Nível 3” e “Dominado”.

Hoje consigo trabalhar os descritores do Enem, sanar dúvidas, reforçar conteúdos e também auxiliar alunos especiais que apresentam discalculia. Os alunos estão engajados na participação desse projeto, e tenho recebido diversos depoimentos positivos.

Quando nos unimos em ações como essa, percebemos que, com pequenos atos, podemos fazer grande diferença na vida escolar dos alunos, preparando-os para os desafios futuros e criando uma cultura do estudo contínuo e qualificado.

 

A Khan Academy foi criada em 2006 pelo educador americano Salman Khan e disponibiliza videoaulas e mais de 300 mil exercícios gratuitos que podem ser acessados a qualquer hora do dia. O site <https://pt.khanacademy.org> oferece ensino personalizado: reconhece quais habilidades o aluno possui e quais ainda precisa adquirir. Além disso, o professor tem acesso imediato ao desempenho de seus alunos e pode identificar as dificuldades de cada um, basta ter um computador com acesso à internet. Em 2014, a Khan Academy passou a ser traduzida para o português pela Fundação Lemann e, desde então, tem ajudado mais de 5 milhões de brasileiros a desenvolver suas habilidades em matemática de forma divertida e sem barreiras. Além da tradução de aulas e exercícios, a Fundação Lemann também oferece um programa gratuito que leva a Khan Academy a escolas públicas, com o intuito de capacitar professores não só para que usem a plataforma em seu dia a dia com os alunos, mas também para que compartilhem esse conhecimento com outros educadores.

 

 

Fonte: Revista CPB Educacional – 2º semestre 2016.
Imagem: Macrovector/Fotolia