É no ambiente escolar que desenvolvemos uma série de conceitos sociais. Afinal, nesse espaço passamos a sistematizar a ética, os deveres e os direitos com mais autonomia do que no ambiente familiar.

Cabe aos profissionais da educação, que participam da vida de crianças e jovens na fase em que estão aprofundando as noções de cidadania, propor discussões cada vez mais amplas a respeito desse tema.

Se analisarmos o mundo sob o prisma de diferentes sociedades, identificadas por seus respectivos aspectos culturais, o debate se voltará para a conexão entre o tempo e o espaço no contexto da cidadania. Segundo Castells2, a organização social segue o princípio do domínio do tempo sobre o espaço, sendo que a história constrói o espaço e atribui identidade a cada lugar. Assim, o ideal de cidadania está inserido na formação cultural.

Tomando como princípio o fato de que o tempo determina o espaço geográfico, é importante entender que existem diferentes conceitos espaciais e aplicações temporais específicas antes que seja possível analisar a integração de que falamos.

A ciência geográfica é uma das áreas que mais se dedica à inter-relação do ser humano com o espaço. Dessa forma, é possível interpretar diferentes unidades do espaço geográfico quando nos referimos a uma região, um território, uma paisagem ou um lugar, sendo que a última unidade passa a ser mais indicada para o debate que envolve a construção da cidadania, embora as demais também sejam importantes.

Segundo Tuan3, lugar expressa a ligação afetiva que cada pessoa estabelece com o espaço em que vive no decorrer de sua vida. Em outras palavras, lugar representa a noção de pertencer e a intensidade da relação ou o sentimento que cada indivíduo vivencia depende diretamente de sua estrutura cultural. Por exemplo, quando alguém menciona o lugar onde nasceu, onde esteve por algum tempo ou se refere a um lugar que relembre alguma experiência pessoal, é possível identificar uma relação emocional.

A identidade coletiva com o espaço vivido no tempo histórico pode favorecer positiva ou negativamente a construção da cidadania, afinal, o senso de direitos e deveres, bem como a luta pelos mesmos, é um produto social. Se considerarmos que a sociedade integra história (tempo) e espaço (lugar), então podemos afirmar que cada sociedade mantém sua identidade exclusiva, razão que justifica, em parte, os diferentes níveis de avanços e leituras sociais.

Carvalho1 destaca que durante o processo histórico da consolidação política e social do Brasil fortaleceu-se a cultura de que a cidadania está mais orientada para o Estado do que para a representação, enquanto em culturas reconhecidas por seus avanços políticos e econômicos ocorre o inverso. É muito evidente que a eleição do Executivo, nas diferentes esferas, é mais importante do que a do Legislativo, geralmente tratada com indiferença e com menos cobranças. A escolha do Executivo atende ao imaginário da população em relação a um “salvador da pátria”, capaz de atender a cada anseio concernente à cidadania. Esse pensamento enraizado na trajetória política do país fatalmente é marcado por sucessivas frustrações e até retrocessos.

A desigualdade social que se desencadeou na história brasileira como consequência direta dos sistemas políticos desenvolvidos, segundo Carvalho, produziu na população um conceito de cidadania determinado pelo consumo. O nível de contentamento ou a sensação de avanços na conquista de direitos se constata na proporção das compras durante um determinado período, quando na verdade a cidadania envolve direitos mais sólidos, que atingem a totalidade da população e que permanecem nas transições políticas. Uma vez que a sociedade polarize a cidadania no imediatismo e na fragilidade das oscilações econômicas, cria-se uma barreira ao desenvolvimento do amplo sentido do conceito.

Embora existam outras situações temporais que interferem na dinâmica do lugar, o histórico político representa um importante fator na construção da cidadania nacional. Devemos considerar a construção da cidadania um processo contínuo e complexo. Detivemo-nos em apenas um ponto da relação tempo/espaço; entretanto, outros aspectos podem ser analisados sob a lógica das muitas áreas científicas.

Como o ambiente escolar é um importante meio de formação de opiniões, uma das atribuições dos profissionais ligados à educação, independentemente do setor ou da área em que atuam, é conhecer as questões espaciais e temporais próprias ao país, com o objetivo de promover a identidade de sua comunidade com o lugar, pois esse enraizamento produz o debate crítico e a busca de uma cidadania condizente com a realidade vivida.

 

 

1CARVALHO, J. M. de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 10. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
2CASTELLS, M. A sociedade em rede. v. 1. 8. ed. rev. e ampl. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
3TUAN, Y. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: DIFEL, 1980.

 

Fonte: Revista CPB Educacional / 2º semestre 2015
Imagem: Syda Productions / Fotolia