Em junho de 2013 ocorreram várias manifestações populares em todo o Brasil, que tinham como objetivo, inicialmente, a redução das tarifas de transporte público nas grandes cidades do país. Desde as mobilizações, em 1992, a favor do impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, a população brasileira não demonstrava sua indignação com a administração do país em tamanhas proporções.

Conhecidas como as Manifestações dos Vinte Centavos, chegaram a contar com o apoio de 85% da população. Inicialmente, poucos milhares participaram, mas com a forte repressão policial, o movimento cresceu, chegando a milhões de manifestantes. A pauta de reivindicações também cresceu, pois deixou de se limitar à redução das passagens dos transportes e passou a protestar contra a má qualidade dos serviços públicos (saúde, educação e segurança), contra a corrupção política e contra os grandes gastos governamentais com a Copa do Mundo. Muitos chegaram a afirmar que “o gigante acordou”, crendo que a partir de então a sociedade brasileira viveria dias melhores.

Diante da grande repercussão nacional e internacional dos fatos ocorridos, o governo brasileiro tomou algumas medidas que procuraram arrefecer os ânimos populares, como arquivar o projeto da PEC 37, tornar a corrupção um crime hediondo e pôr fim ao voto secreto nas votações de cassação de parlamentares acusados de irregularidades no exercício de seus mandatos, além das eternas promessas de reforma política, tributária, etc.

Vistos em panorama social maior, os manifestos ocorridos no Brasil podem ser localizados dentro de um contexto global de diversas manifestações espontâneas ocorridas no mundo, como a Primavera Árabe (2010), no Oriente Médio e no norte da África; o Occupy Wall Street (2011), nos EUA; e o Movimiento 15-M (2011), na Espanha. O que está evidente é o desejo da sociedade moderna por mudanças que melhorem a vida da população de um modo mais abrangente.

Transformar um país significa alterar um modelo social insatisfatório por outro melhor, sendo que essa transformação pode ocorrer por causas descontroladas ou planejadas. Como exemplo do primeiro caso, temos a Revolução Francesa (1789-1799), que após um intenso período de agitação política e social conseguiu abolir os privilégios aristocráticos da monarquia absolutista e os resquícios de uma sociedade medieval antiquada. Muitas foram as conquistas, mas a um custo enorme de vidas. Só entre 1793-1794 (Fase do Terror), mais de 300 mil pessoas foram presas e cerca de 30 mil foram mortas na guilhotina.

No entanto, como exemplo do segundo caso, temos a Revolução Gloriosa (1688) ocorrida na Grã-Bretanha, que, sem muita violência e com um mínimo de agitação social, promoveu uma melhora no sistema político britânico, permitindo o aperfeiçoamento do regime parlamentarista moderno.

Mudar um país com as dimensões do Brasil constitui uma tarefa descomunal. Com uma população estimada de 200 milhões de habitantes, distribuída em um território de 8.515.767,049 km², fica claro que essa mudança não depende apenas da vontade de uma ou duas pessoas.

Ao estudarmos a história do Brasil, percebemos que existiram várias manifestações e revoltas de caráter popular. Do período imperial podemos citar a Cabanagem (1835-1840), no Pará; a Sabinada (1837-1838), na Bahia; e a Balaiada (1838-1841), no Maranhão. Na fase republicana são exemplos notórios Canudos (1896-1897), na Bahia; o Contestado (1912-1916), em Santa Catarina; e o Movimento Tenentista (1922-1924), em São Paulo e no Rio de Janeiro. Todas contando com a falta de sensibilidade dos governantes da época, e com a correspondente violenta repressão policial e militar.

Manifestações sociais têm a sua importância, pois indicam às autoridades constituídas o descontentamento das pessoas com alguma situação. Marchas, piquetes, protestos de nudismo ou de ocupação territorial têm impacto instantâneo, mas geralmente são fruto do calor do momento provocado por alguma situação de emergência. Porém, por meio do sistema eleitoral existe a possibilidade de uma análise mais elaborada da conjuntura cultural, econômica e política da sociedade. Permite o debate aberto das questões sociais, possibilitando o surgimento de propostas e alternativas de solução planejadas.

O voto é uma manifestação legítima e legal predeterminada pelo cidadão em relação a um programa de governo apresentado pelos candidatos dos vários partidos políticos existentes. No Brasil, o voto ainda é obrigatório dos 18 aos 70 anos, em que são contabilizados apenas os votos válidos, excluindo os votos brancos e nulos da contagem final. No caso destes últimos somarem mais de 50%, deve ser feita outra eleição, com novos candidatos. Por isso, devemos valorizar esse instrumento de expressão da vontade popular, bem como interessar-nos pelos programas partidários, pela biografia de cada candidato e pela ideologia de cada partido.

O Brasil vive, desde 1985, o período de maior democracia de toda a sua história, e devemos trabalhar para aperfeiçoar o nosso sistema representativo de governo. Muito ainda deve ser feito para transformar o país em um lugar melhor para todos, com um sistema educacional e hospitalar mais humano, com um modelo político mais ético e transparente e com um sistema tributário mais justo.

Tudo pode ser construído por meio de governos democraticamente eleitos pelo voto consciente, do eleitor que analisa as propostas dos partidos, que não se deixa levar por vantagens materiais ou financeiras oferecidas por partidos ou candidatos.

O Brasil vai mudar, pois nenhuma sociedade é estática. Mas, mudar de que forma? A mudança deve começar com cada cidadão que trabalha, estuda, pensa e participa politicamente, por meio do voto livre, democrático e consciente. Sociedades amadurecidas não queimam ônibus ou depredam espaços públicos e privados. Elas se organizam e procuram encontrar um caminho legítimo que tenha o bem-estar comum como escopo de sua existência.

Espero que o gigante desperte, pois “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

 

Fonte: Revista CPB Educacional – 2º semestre 2014.
Imagem: Typomaniac / Fotolia