Admirado como um dos maiores escritores de todos os tempos, William Shakespeare é tido como um clássico que se mantém vivo e atrativo a todas as gerações, mesmo as que viveram bem depois dele. Isso se deve a sua grande capacidade de investigar e compreender a natureza humana, tanto sob o ponto de vista da vida individual quanto da coletiva. Em seus textos, o ser humano é apresentado como responsável por suas atitudes e, consequentemente, pelos resultados de suas ações. Com sua magistral forma poética, construiu personagens sem nenhum tipo de preconceito ou apresentou-os com aspectos particulares desprezíveis.

Ele nasceu em Stratford-upon-Avon, em 23 de abril de 1564, sendo seus pais John e Mary Shakespeare pertencentes à classe média local. Seu pai, além de comerciante, dedicou-se também à administração pública chegando a ser vereador e prefeito da cidade.

Em 1569, Shakespeare entrou para o Petty School (escola elementar) e em 1572 fez o Grammar School (escola secundária), no qual estudou latim, retórica e literatura clássica. Com a falência comercial de seu pai em 1579, ele se viu forçado a deixar a escola e começou a trabalhar como tutor na casa de uma família abastada.

Aos 18 anos Shakespeare se casou com Anne Hathaway, filha de um próspero fazendeiro local e oito anos mais velha que ele. No ano seguinte (1593) nasceu sua filha mais velha, Susanna, e dois anos depois nasceram os gêmeos Hamnet e Judith. Com muitas dificuldades financeiras para sustentar a família, Shakespeare foi para Londres em busca de melhores condições de trabalho.

Um violento insulto redigido pelo dramaturgo Robert Greene (1558-1592) demonstra que as peças de Shakespeare já faziam sucesso em 1592. Com o longo poema “Vênus e Adônis” dedicado ao conde de Southampton, William conseguiu publicar uma obra pela primeira vez. Com o dinheiro recebido com a publicação do poema “O rapto de Lucrécia”, ele adquiriu uma cota da companhia teatral Lord Chamberlain’s, de propriedade do ator Richard Burbage, tornando-se um empresário no setor de entretenimento.

Shakespeare viveu sob o reinado de Elizabeth I (1558-1603), que se dedicou a reformar a falida e conflituosa Inglaterra, herdada dos reinados turbulentos de seu pai Henrique VIII (1509-1547) e de sua meia-irmã Maria I (1553-1558). Durante seu governo, a Inglaterra deixou de ser uma monarquia periférica da Europa e tornou-se uma de suas principais potências. Assim, sob o governo da “boa rainha Bess”, Shakespeare usufruiu um ambiente político, econômico e cultural promissor para o desenvolvimento da arte teatral e poética.

O mundo teatral da época elisabetana, no entanto, era bem diferente dos tempos atuais. Os teatros londrinos não estavam localizados em lugares nobres e as apresentações das peças eram feitas todos os dias, menos aos domingos.

Os espetáculos eram apresentados das 14 às 17 horas para aproveitar a luz natural do Sol. Não havia intervalos, de modo que a ação era contínua. O público era indisciplinado, pois as pessoas não ficavam quietas durante a apresentação, chegando a jogar objetos nos atores caso não gostassem da peça ou de sua interpretação. Era como um jogo de futebol, com torcidas acompanhadas de palavras não elogiosas aos vilões das peças. As pessoas comiam e bebiam durante as apresentações. Não havia cortinas e nem cenários. As peças eram barulhentas, apresentando sons de trombetas, tiros de canhões e o retinir de espadas em conflito. Não havia banheiros nos teatros. Os papéis femininos eram encenados por meninos pré-adolescentes. Shakespeare transformava a restrição do sexo em vantagem ao invocar a paixão por meio de uma rica linguagem poética.

As 37 obras teatrais de Shakespeare classificam-se como: peças históricas (Ricardo III, Henrique V), peças trágicas (Romeu e Julieta, Hamlet, Otelo, Rei Lear, Macbeth), peças cômicas (Sonho de uma noite de verão, Noite de reis, As alegres comadres de Windsor, Muito barulho por nada) e peças românticas (Conto de inverno, A tempestade). Por sua vez, as obras líricas mais importantes são Vênus e Adônis, A violação de Lucrécia, além do livro Sonetos.

Boa parte de suas peças, torno de 70%, foram compostas de versos brancos, 5% de versos rimados e 25% de prosa. Fez referência a 36 livros da Bíblia, sendo 18 do Antigo Testamento e 18 do Novo. Shakespeare foi um grande contador de histórias, porém, a maioria de suas peças foi baseada em trabalhos de outros escritores. Por exemplo, Romeu e Julieta (1595) foi livremente inspirada em um poema de Arthur Brooke escrito em 1562. A genialidade particular de Shakespeare consistia, portanto, em pegar uma ideia original interessante e torná-la ainda melhor. Isso pode ser percebido ao comparar um trecho de Vidas paralelas, de Plutarco, e a peça Antônio e Cleópatra (ver boxe).

Notável também foi sua contribuição para tornar o inglês uma língua respeitável em uma época em que o latim era o idioma preponderante entre as pessoas cultas. Em suas obras criou 2.035 palavras. Por exemplo, somente Hamlet (1601), com 4.042 linhas e 29.551 palavras, forneceu às plateias e aos dicionários 600 novos vocábulos.

Em 1613, quando seu teatro em Londres (The Globe) pegou fogo, Shakespeare se retirou para sua cidade natal, passando a se dedicar apenas à família. Ele morreu no dia 23 de abril de 1616 deixando um legado artístico que 400 anos depois de sua morte apenas confirma sua grandiosidade universal.

 

Plutarco & Shakespeare

Vidas paralelas

Cleópatra tomaria sua barcaça no Rio Cidno; a popa era de ouro, de púrpura e os remos, de prata, acompanhando a cadência da música de flautas, oboés, cítaras, violas e outros instrumentos que tocavam na embarcação. E agora sobre a pessoa dela: ela estava deitada sob um pavilhão de tecido dourado, adornada como a deusa Vênus; comumente retratada em quadros; próximo a ela , de ambos os lados, meninos bonitos, adornados como os pintores retratam o deus Cupido, com leques em suas mãos, com os quais eles a abanavam. Suas damas também faziam o mesmo; as mais lindas adornadas como ninfas.

 

Antônio e Cleópatra

Semelhante a um trono resplandecente,
Queimava na água o barco onde ela ia sentada.

A popa era de ouro batido; tão perfumadas estavam as velas de púrpura,

Que os ventos pareciam ter por elas se apaixonado;

Os remos eram de prata, manejados ao som de flautas,

E a água que açoitavam voltava desejosa de receber mais golpes.

E quanto à própria pessoa de Cleópatra, toda descrição seria pobre.

Ia reclinada sob um pavilhão de brocado de ouro,

Mais bela que a Vênus que conhecemos,

Obra-prima que supera a natureza.

A seu lado havia meninos com covinhas,

Semelhantes a cupidos sorridentes, com leques de diversas cores,

E o vento parecia avivar-lhes o róseo da face.

Ao refrescá-los e fazendo assim o que desfazia.

 

Fonte: Revista CPB Educacional – 2º semestre 2016.
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