O QUE É ESPERANÇA? José Enrique Rodó, autor uruguaio, descreve a esperança como um sonho ilusório baseado em um futuro irreal. Como uma ilusão, nascida de sonhos originados nos recessos da mente, a esperança serve para disfarçar a pobreza, a infelicidade e a realidade cruel que permeia a vida.

Pensadores como Spinoza, Goethe, Schiller, Marx, Nietzsche e Shelley também viram a esperança no futuro como um escape à realidade. Goethe diria que o ser humano ideal é aquele que se libertou de expectativas, sem nenhum interesse no futuro. A maioria das gravuras romanas e gregas descreve a esperança como uma ninfa sorridente, cercada de flores, árvores e frutos: uma “deusa da natureza”, irmã da ilusão e da morte.

Uma dimensão do comportamento

Estudantes do comportamento humano descrevem a esperança como um fator crucial na vida, que é composto de diferentes partes:

– Um elemento cognitivo com expectativas positivas sobre o futuro.

– Um fator emocional que trata de atributos como conforto, paz, segurança e confiança.

– Um comportamento baseado em atitudes que emergem da liberdade e da responsabilidade, e não do fatalismo.

– Um princípio inter-relacional que influencia o desenvolvimento de um relacionamento cooperativo e confiante com os outros.

– Uma orientação de valores e crenças, uma expressão de fé na confiabilidade da vida e do futuro, de forma que guie a uma vida proveitosa.

Albert Carnus disse que a esperança poderia ser encontrada no interior da desesperança. Elas podem ser polos opostos, mas encontram-se em relacionamento dialético, às vezes envolvidas em um conflito dramático e até mesmo destrutivo. Isso pode levar à depressão e exaustão ou pode se tornar uma nova força e solução.

Frequentemente, a tensão entre a esperança e a desesperança pode ser vista em situações como: olhar para frente × olhar para trás, otimismo × pessimismo, criatividade × repetitividade, fortaleza × desespero, confiança × desconfiança, orientação produtiva × orientação destrutiva.

A dimensão bíblica

Para o cristão, a esperança está baseada nas promessas de Deus e na segurança do poder da presença do Espírito Santo. Como resultado, a despeito das circunstâncias, a esperança permanece.

A Bíblia apresenta a esperança como um ingrediente essencial à vida humana. Ela dá coragem para afirmar o significado do terrível sofrimento de Jó. Ela é a luz condutora para o povo de Deus na marcha para a terra prometida. Ela é uma âncora de segurança para o navio missionário de Paulo. A esperança bíblica é um poder divino, uma promessa divina, o amor divino provido para a vida humana.

Rudolf Bultmann, teólogo alemão, faz um sumário do conceito bíblico de esperança em seis princípios:

– A esperança constantemente anseia que algo aconteça.

– A esperança significa ter um futuro.

– A esperança se identifica com confiança. Deus é o princípio e o objeto da esperança.

– A esperança inclui sofrimento, perseverança e o desejo de suportar todas as coisas.

– A esperança faz a pessoa disposta a enfrentar mudanças, mesmo em situações desesperadoras.

Mudança de perspectivas

Tradicionalmente, a esperança é considerada um componente da fé religiosa. Na Bíblia, fé é como “a substância das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêm” (Hb 11:1). Paulo considerava a esperança como uma das três virtudes que haverão de permanecer (1Co 13:13), baseando-a naquilo que Deus pode fazer agora (1Tm 5:5) e naquilo que Ele planeja fazer na realização escatológica (2Co 3:12; Rm 8:18-23; 1Ts 4:13).

Os reformadores protestantes identificaram a esperança humana com uma forte confiança em Deus e na Sua graça salvadora.

Esperança e saúde mental

Pesquisadores têm visto implicações patológicas na desesperança. A falta de esperança é relacionada com depressão, melancolia, esquizofrenia, alcoolismo, adição a drogas, comportamento antissocial e tendências suicidas.

Ao mesmo tempo, o papel da esperança no desenvolvimento da saúde física e mental tem-se provado compensador. As pessoas com um alto grau de esperança têm baixo nível de problemas psicológicos e possuem uma percepção positiva da vida.

Ancorada nas promessas de um Deus que ama e se interessa individualmente pelas pessoas, a esperança cristã constitui um fator-chave para a saúde mental, provendo significado e equilíbrio emocional. Como Paulo escreveu para um grupo de cristãos primitivos: “Ora o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz em crença, para que abundeis em esperança pela virtude do Espírito Santo” (Rm 15:13).

 

Por Mario Pereyra