Ainda não há consenso em relação ao nome (Z ou Touch) e ao início da geração de crianças e adolescentes nascidos nesta última década (ou a partir de 1996, segundo o The New York Times). Entretanto, não há dúvida de que a presença constante da tecnologia é a sua característica mais facilmente reconhecida.

Esses jovens são os verdadeiros nativos digitais, e a maioria nem tem recordação de como era a vida antes da invenção das redes sociais e dos smartphones. Um aluno que ingressou no Ensino Médio neste ano, por exemplo, tinha apenas seis anos quando o primeiro iPhone foi lançado e três anos quando Zuckerberg e seus amigos fundaram o Facebook.

A influência que a tecnologia exerce sobre o comportamento, os hábitos e os gostos da Geração Z tem preocupado profissionais de diversas áreas, pois surge um público insaciável por inovações, mas que perde o interesse por elas pouco tempo depois. Conhecê-la e envolvê-la no processo de criação e desenvolvimento tem sido determinante para o sucesso ou fracasso de produtos e serviços.

Pesquisa

Reconhecendo esse desafio e visando à produção de materiais mais eficientes e atrativos, a CPB Educacional convidou mais de 2.700 alunos do Ensino Médio de todas as regiões do país para participar de uma pesquisa cujo objetivo era avaliar a expectativa deles em relação ao lançamento do livro digital em 2016 e conhecer a visão deles sobre o uso da tecnologia no aprendizado.

Alguns resultados apontados pela pesquisa servem como subsídio para confirmar várias características estereotipadas dos adolescentes da Geração Z, como a preferência pelo WhatsApp como ferramenta de interação, por exemplo. Outros, porém, mostraram opiniões surpreendentemente tradicionais para adolescentes considerados nativos digitais. Resultados como esses levam à seguinte pergunta: seriam os alunos da Geração Z tão diferentes dos demais?

RESULTADOS

Equipamentos e sistemas operacionais

Uma das metas da pesquisa consistia em saber quais sistemas operacionais e equipamentos são mais populares entre os alunos. Esses dados são essenciais para desenvolvedores de conteúdos digitais e para gestores educacionais, pois são a base de decisões importantes, como o processo de produção, a política de distribuição e a aquisição de equipamentos. Infelizmente, a pesquisa não apontou uma forte predileção por um único sistema. Embora o sistema Android tenha sido apontado como o mais utilizado, a diferença em relação ao iOS foi de apenas 4,6 pontos percentuais. Isso mostra que ambos os sistemas devem ser priorizados nas fases de desenvolvimento e manutenção, além de impor um desafio aos gestores que desejam adotar um único equipamento e sistema.

Em relação aos tipos de equipamentos, os smartphones (48%) e computadores (41%) são as ferramentas de preferência para a aprendizagem. Contrariamente às previsões iniciais, apenas 10% dos entrevistados escolheram tablets. Esse fato pode não parecer novidade, porém é uma surpresa para os que têm acompanhado a revolução digital iniciada com o lançamento do iPad em 2010.

Expectativas em relação ao lançamento do livro digital e ao uso da tecnologia

A pesquisa mostrou que os alunos da Geração Z são favoráveis à utilização dos livros digitais e de recursos tecnológicos para a aprendizagem. Entre os entrevistados, 93% concordam que a tecnologia facilitará o aprendizado e que o livro digital tem vantagens que a versão impressa não apresenta, tais como:

  • diminuição do volume de materiais transportados;
  • acesso aos livros em qualquer hora e local a partir de smartphones;
  • recursos multimídia e informações complementares que facilitarão o entendimento de conceitos teóricos;
  • integração com redes sociais;
  • rapidez na atualização das informações.

Recursos multimídias são alguns dos aspectos mais aguardados em um livro digital. Diversas editoras investem milhares de reais em animações e modelos que tornam o material esteticamente mais atraente, mas com pouca relevância pedagógica. Por isso, um importante tópico da pesquisa realizada pela CPB Educacional foi descobrir qual recurso o aluno considera mais eficaz para o aprendizado. Entre as opções apresentadas, 84% elegeram vídeos como o recurso mais relevante. As demais escolhas foram, respectivamente: simulações, objetos 3D, áudios, animações e jogos educativos.

Outro resultado que corrobora essa preferência foi a escolha do YouTube como principal fonte de informação para a aprendizagem. Ironicamente, entretanto, apenas 6,4% o elegeram como a mais confiável. Um paradoxo semelhante ocorreu em relação ao livro didático. Apesar de a maioria dos entrevistados considerá-lo a fonte de informações mais confiável, nem todos afirmaram utilizá-lo como principal ferramenta de aprendizagem.

Esses dados demonstram que os alunos ainda reconhecem o livro didático como protagonista em seu aprendizado, porém é imprescindível oferecer novas ferramentas e recursos a fim de evitar que supram essa necessidade buscando fontes não confiáveis.

Argumentos desfavoráveis e outras considerações

Embora o apreço pela tecnologia e a familiaridade com ela sejam características marcantes dos jovens da Geração Z, nossa pesquisa mostrou que a predileção  incondicional por recursos digitais em detrimento de qualquer outra ferramenta não passa de um estereótipo. Entre os entrevistados, apenas 31% preferem utilizar a versão digital do livro didático e 86% não acreditam que os livros impressos serão completamente substituídos.

Mesmo reconhecendo os benefícios e a importância da versão digital, 52% dos alunos não concordam ou não têm certeza de que essa ferramenta influenciará seu  nível de motivação. Esses dados indicam que a Geração Z, assim como as demais, também tem ressalvas quanto à implantação desse novo método de ensino. Esses jovens demonstram estar abertos a novas tecnologias, mas não se deixam iludir. Contrariando a imagem criada, grande parte dos alunos da Geração Z confia no método tradicional de ensino e ainda o prefere. Os alunos não acreditam que a tecnologia trará resultados instantâneos e milagrosos, porém veem de forma positiva uma implantação gradual e planejada dessa prática, na qual o livro impresso e o digital coexistirão.

Durante a pesquisa, os entrevistados defenderam o uso da versão impressa do livro didático com argumentos que podem ser considerados inusitados, não porque sejam novidade, mas por serem provenientes de jovens da Geração Z. Entre diversos comentários, alguns alunos afirmaram que sentirão falta de tocar o papel, do som das folhas sendo viradas, das anotações escritas nos cantos das páginas e do ato de sublinhar ou grifar textos manualmente. Outros argumentam que a internet poderá facilitar a distração, a iluminação do aparelho poderá cansar os olhos e a caligrafia poderá ser prejudicada. Essas observações são frequentemente debatidas por educadores, gestores e Editoras. Isso mostra que a distância entre a Geração Z e as demais é menor do que se imaginava.

Conclusão

A Geração Z apresenta características únicas devido à quantidade sem precedentes de informações disponíveis, à facilidade de acesso a elas e à velocidade da comunicação que a tecnologia tem proporcionado. Essas diferenças realmente impactam a relação entre alunos e professores; contudo são amplamente exageradas. As crianças e os adolescentes têm sido frequentemente caracterizados como hostis a tudo que seja analógico e estariam ansiosos para substituir qualquer objeto por seu equivalente digital.

Acredita-se que os métodos de ensino precisam ser completamente informatizados, pois os tradicionais já não são mais relevantes para essa geração. A pesquisa, entretanto, provou outra realidade. Os entrevistados mostraram-se receptivos à inclusão do livro digital e de recursos tecnológicos na sala de aula; no entanto, expressaram basicamente as mesmas preocupações que os educadores têm.

Os alunos não exigem e não desejam que a forma de ensinar seja completamente reformulada, mas é preciso que mudanças sejam implementadas para que habilidades inatas da Geração Z sejam exploradas e potencializadas. Por exemplo, os alunos entrevistados demonstraram grande interesse por vídeos, mas isso não significa substituir o livro didático por filmes. Essa descoberta pode ser aproveitada para encorajar os educandos a produzir e compartilhar suas próprias criações.

Para que a implantação de recursos tecnológicos na sala de aula seja bem-sucedida, é necessário adotar uma nova postura. Ao invés de temer que as diferenças entre gerações cresçam, precisamos enxergar que a tecnologia as aproximará. Os professores terão à disposição mais ferramentas para criar aulas e projetos que atrairão ainda mais a atenção dos alunos, enquanto estes aprenderão com os professores a utilizar recursos tecnológicos de forma mais eficiente.

Já não é mais possível evitar que a evolução tecnológica chegue à sala de aula, o único caminho é descobrir como lidar com ela.

 

 

Fonte: Revista CPB Educacional – 1º semestre 2016