As crianças recém-nascidas vivem num intenso egocentrismo e vêm ao mundo sem a consciência do que podem ou não fazer – ou seja, em completa ausência de regras. Cabe aos pais ensinar aos filhos os padrões a serem seguidos.

Toda família ou grupo social tem padrões morais para o comportamento de seus membros, e esses padrões são transmitidos através de um relacionamento ativo das crianças com seu meio social. É nessa fase que a criança percebe a existência de regras provenientes de várias fontes.

As crianças precisam aprender essas regras e, somente através das interações estabelecidas num ambiente cooperativo, de respeito mútuo e reciprocidade, é que as regras passam a lhes pertencer.

Afinal, é interessante notar que a regra por si só não tem força nem poder para desencadear na mente do indivíduo o “sentimento do dever”. Para que isso ocorra, é necessário que a regra tenha origem em alguém respeitado e admirado.

Os pais devem se conscientizar de que, caso não sejam merecedores de respeito, sua disciplina, normas, regras e crença terão uma influência negativa sobre os filhos. Portanto, o grande abismo da disciplina talvez esteja no âmbito da falta de respeito, ou seja nos péssimos exemplos que temos dos nossos pais e educadores.

Devemos ter cautela com os referenciais que transmitimos, pois a maneira com que os pais ensinam esses padrões, como eles disciplinam seus filhos determinará a formação do caráter deles. Vejamos agora quatro tipos de disciplina normalmente aplicadas pelos pais:

Autoritário

Neste modelo, geralmente os pais ditam regras rígidas e exigem que tudo seja seguido à risca, sem questionamento. São muito críticos, só enxergam erros e defeitos. Evitam elogiar, temendo perder autoridade; são frios, não demonstram afeto. As explicações desses pais para a disciplina são: “Vai ter que fazer como eu quero, quem manda aqui sou eu!” “Vai ter que fazer e pronto!”

O castigo é a arma principal desses pais. Geralmente, eles acreditam que o castigo provoca arrependimento na criança, porém, ele quase sempre produz sentimentos de vingança e culpa. Pais e educadores que machucam, ofendem e castigam suas crianças poderão exercer controle sobre elas, mas não as tornarão pessoas dignas, felizes, com amor próprio, e maturidade para enfrentar o mundo. Ao contrário, estarão formando pessoas com baixa autoestima, imaturas e com sérias dificuldades para dar e/ou receber amor. Nesse tipo de disciplina, não existe respeito para com a criança e o medo é a base da relação.

Chantagista

Esse tipo de disciplina não se vale de punição física nem é autoritária, mas expressa sua desaprovação através de chantagens do tipo: “Você vai fazer isso filho? Ah, a mãe não vai mais gostar de você, se fizer isso.” “Pode fazer, mas não quero saber mais de você. Não sou mais sua mãe.”

A mãe chantagista é sempre demasiadamente carinhosa e atenciosa e não deixa ninguém à deriva. Mas quando se encontra encurralada, chora. As lágrimas têm por objetivo fazer os filhos se compadecerem de sua dor. “Coitadinha da mamãe!” Esses pais têm dificuldade de encarar suas frustrações e ameaçam com a retirada do amor. A mãe não só traz a ameaça da retirada do amor, como na verdade demonstra rejeição à criança, ao dar lhe as costas ou ameaçá-la de abandono. O uso dessa disciplina está associado a um forte sentimento de culpa.

Permissivo

O problema desse tipo de disciplina é exatamente a falta de disciplina. Esses pais costumam deixar que os filhos façam o que querem. Não existe norma nem regra a ser seguida. São passivos diante da desobediência, não impõem limites. Desde que a criança queira, tudo é permitido. A criança se torna o rei ou rainha da casa e os pais seus súditos.

Pais que são muito preocupados em não ensinar nem exercer disciplina sobre seus filhos, podem se tornar ausentes e acabar formando uma criança fraca e vulnerável. Essa prática de permitir que os filhos tenham liberdade ilimitada transforma os em verdadeiros tiranos e, os pais, em simples escravos. Essas crianças usufruem toda a liberdade, enquanto os pais assumem todas as responsabilidades.

Os pais arcam com todas as consequências desastrosas da liberdade excessiva de seus filhos, acobertando-os, suportando seus insultos, satisfazendo suas inúmeras solicitações e, por fim, perdendo toda influência sobre eles.

Educador

Os pais que adotam essa disciplina têm o cuidado de conversar com os filhos. Num clima de liberdade, falam e dão explicações sobre as consequências positivas e negativas das ações da criança para si e para os outros. Pais educadores não perdem de vista que não se pode ser livre a menos que se tenha respeito pela liberdade do outro. Ninguém pode usufruir liberdade, a menos que seu próximo também possa. A fim de que todos possam ser livres, é preciso que haja certa ordem, e toda ordem traz em si determinadas restrições e obrigações.

A liberdade também implica responsabilidade. Sou livre na medida em que aceito as restrições, de acordo com as regras de boa convivência para todos. Só podemos ser livres se a ordem for respeitada. Essa ordem não pode ser injusta nem imposta por uma autoridade autocrática, em benefício próprio, mas deve ser justa, procurando sempre o benefício de todos.

Pois quando alguém aplica a disciplina, está comunicando o que é saudável e importante. Disciplinar é estabelecer limites para o comportamento, visando o bem-estar, a segurança e o crescimento do disciplinado.

Quando uma decisão é tomada em clima de respeito mútuo, as pessoas ficam mais abertas para ouvir e refletir, podendo assim, dentro de um clima favorável e encorajador de cooperação e reciprocidade, construir interiormente valores morais que não serão facilmente influenciados pelas mudanças dos padrões do ambiente, estimulando assim o desenvolvimento de um caráter saudável.

Enfim, quando a disciplina é estabelecida de maneira apropriada e amorosa, ela passa a servir de ajuda no processo de socialização da criança, ensinando-a a sentir-se bem consigo mesma, assim como ter bom relacionamento com outras pessoas. Ao mesmo tempo, promove o senso de segurança e a sensação de ser amada.

 

 

 

Fonte: Revista Vida e Saúde – Maio 2009
Imagem: Annett Seidler / Fotolia