A nossa voz é um intérprete de nós mesmos. Ela diz quem somos. E pode falar bem ou mal de seu dono. Ela “cria”, na outra ponta do fio telefônico, uma imagem de nossa personalidade e pode até influenciar, positiva ou negativamente, a conclusão de um negócio.

A fala é importante não só para os profissionais da voz, como radialistas, cantores, oradores e professores. Todas as pessoas se beneficiam quando as pregas vocais estão saudáveis e são corretamente utilizadas. Portanto, é bom procurar entender um pouquinho o funcionamento desse mecanismo que projeta parte do que somos para o mundo exterior.

Instrumentos de corda

As pregas vocais vibram como as cordas de uma guitarra. Elas são formadas por quatro membranas alongadas, de tecido elástico, e estão posicionadas duas de cada lado da glote, a parte central da laringe. A parte anterior das pregas vocais fixa-se à cartilagem tireoidiana, e a posterior à cartilagem aritenoide, que é uma estrutura móvel. E? esse posicionamento que as mantém imóveis na abertura anterior e permite que se juntem e separem na posterior.

Segundo a fonoaudióloga Leilane Maria Farias Leite de Albuquerque, de Tatuí, SP, a voz é o resultado do equilíbrio entre duas forças: a força do ar que sai dos pulmões (aerodinâmica) e a força muscular das pregas vocais (mioelástica). As pregas vocais têm parte no processo, mas o tórax funciona como um fole; a cavidade bucal e as fossas nasais ou cavidades de ressonância são modeladores e amplificadores dos sons. A voz é produzida quando o impulso do ar faz vibrar as pregas vocais, que se encontram afastadas entre si. Sem o ar nada acontece. Na verdade, o som é produzido no momento da expiração. A elasticidade e a força muscular desempenham um papel importante aqui.

A frequência da voz é determinada pelo comprimento, pela capacidade de distensão e pela massa das pregas vocais. Quando se emite um som grave, elas se encurtam e a mucosa que as recobre apresenta-se flácida. Quando o som é agudo, elas se alongam e a mucosa se torna mais tensa. Ao falar e cantar, as pregas vocais aproximam-se e produzem um som laríngeo, cujo tom é modificado pela sua forma e distensão. As variações do timbre podem acontecer também em decorrência da disposição do palato, da língua e dos lábios. Há pessoas, por exemplo, que têm dificuldade na emissão da voz pelo fato de não abrirem a boca suficientemente ao emitirem os sons. O mau uso e o abuso vocal muitas vezes causam distúrbios vocais. Usar mal a voz (e respirar de modo errado) pode provocar nódulos nas pregas vocais e alterações da voz.

Doenças da voz

De modo geral, os distúrbios das pregas vocais provocam uma disfonia (alteração da voz). Já a ausência total do funcionamento resulta em afonia (perda da voz). Afonias verdadeiras são raras e só acontecem quando as pregas vocais não se aproximam e ficam abertas. Para isso, é preciso que haja problemas de comando nervoso e fatores psíquicos. Se a pessoa consegue emitir o som de uma tosse, mas não consegue falar, significa que as pregas vocais funcionam e que o problema pode ser psíquico.

Se a voz estiver saindo baixinho, a pessoa não está afônica. Ela tem uma disfonia – qualquer dificuldade na emissão natural da voz, seja por fatores orgânicos ou funcionais, o que inclui causas emocionais. A disfonia ocorre quando as pregas vocais vibram mal. As alterações da voz, nesse caso, são de altura, timbre e intensidade. Dentre as principais enfermidades que atingem as pregas vocais, podemos destacar as seguintes:

Problemas de movimento: estão ligados à presença de tumores, traumatismos, infecções dos gânglios linfáticos, corpos estranhos, bócio e extração da cartilagem tireoidiana. Nesses casos, ocorre a paralisia de uma ou de ambas as pregas vocais, a voz desaparece e a respiração torna-se ofegante.

Problemas de tom: são mais comuns em casos de histeria, aparecendo nos estados inflamatórios e choques psíquicos. Em crianças raquíticas acontece nos espasmos da laringe. É comum também durante o processo de mudança de voz na puberdade, especialmente se ocorrer atraso ou prolongamento além do normal.

Tumores: rouquidão constante, perturbações na hora de engolir os alimentos e dificuldades de respiração podem indicar a presença de um tumor. Em 98% dos casos de câncer das pregas vocais, o paciente é fumante.

Irritações contínuas: a aspiração de poeiras, fumaça de cigarro e outros poluentes provoca inflamações crônicas que formam calos nas pregas vocais. Em pessoas que utilizam constantemente a voz, essas irritações produzem nódulos (pólipos) nas pregas vocais.

Infecções agudas: a laringe e as amígdalas, sujeitas às infecções gripais, também afetam as cordas vocais e alteram a voz. Provocam tosse, rouquidão e dificuldades respiratórias. É o caso das laringites agudas e crônicas, quase sempre acompanhadas de rinites, rinofaringites e sinusites.

A reeducação vocal pode ser a base para se evitar grande parte dos problemas da voz. Além disso, há outros fatores como ambiente, hábitos alimentares, vestuário e o uso de drogas como fumo e bebidas alcoólicas, que predispõem o organismo a todos esses males. Sua voz fala de você. E o que ela diz?

Preserve a voz

Barulho: não entre em competição com outros sons. Se você estiver no pátio na hora do intervalo de aula, ou na preparação de atividades escolares com muito movimento de alunos, é bom cuidar-se. Nessas ocasiões a tendência é falar cada vez mais alto. Não se esforce para superar o barulho.

Fumo e bebidas alcoólicas: cigarro, charutos e bebidas alcoólicas possuem elementos que irritam excessivamente as células ciliadas. Os cílios fazem o trabalho de microvassouras, limpando a mucosa da garganta. Sob o efeito desses elementos, o muco se acumula e deixa a voz mais grave. Substâncias tóxicas do fumo se acumulam nas cordas vocais e produzem o famoso pigarro. Ao pigarrear, o fumante agride mais ainda as pregas vocais.

Alimentos: alimentos muito gelados ou muito quentes devem ser evitados por quem deseja manter a voz em dia. A temperatura ambiente é sempre a melhor. Frutas cítricas absorvem o excesso de muco que se acumula na laringe, limpando-a. A maçã, além de refrescante, também ajuda a limpar a garganta. Tome água no intervalo das refeições, pelo menos quatro copos ao dia. Evite chocolate, refrigerante, café e chá preto, pois possuem substâncias que irritam a mucosa. Pastilhas e balas são perigosas. Elas podem mascarar um problema.

Roupas: ter boa voz significa respirar bem. Roupas apertadas, na cintura e na garganta, dificultam a respiração. Habitue-se a respirar pelo diafragma. Sua potência de voz aumentará.

Ar condicionado: no calor não tem nada melhor. Entretanto, saiba usar. Ao retirar a umidade do ar, o condicionador resseca a mucosa que reveste e lubrifica as pregas vocais.

Exercícios para melhorar a voz

Grave sua voz e observe as falhas. Um defeito grave é concluir as frases em tom mais baixo. Converse gravando sua voz dez minutos pela manhã ou noutro horário por vários dias, e faça avaliações.

Respire a partir da região central do tórax (abdômen). O estômago deve se mover levemente para fora quando você inspira, e gradualmente para dentro ao falar. Evite encher ou esvaziar o peito para respirar ao falar.

Há um tom de voz para cada situação. Em qualquer caso, evite recuar a voz para a garganta. Se você quer falar baixinho, diminua o volume em vez de alterar a fonte do som. A vibração do som correta, quando se fala, deve estar em volta dos lábios e do nariz e nunca na garganta.

 

Consultoria: Dra. Leilane Maria Farias Leite de Albuquerque, fonoaudióloga especializada na área de voz. Adaptado de: revista Vida e Saúde, n. 10, Ano 60, out. 1998, p. 8-9.