A sala de aula é um lugar onde um aluno senta atrás do outro e todos ficam em silêncio enquanto o professor fala, certo? Talvez essa tenha sido a realidade de muitos de nossos pais e avós, que estudaram num tempo em que até mesmo a punição física era um recurso utilizado para garantir a “atenção” dos estudantes.

Sem dúvida, ao longo dos anos, a sala de aula tornou-se um espaço muito menos rígido e mais participativo, com a possibilidade de novas configurações não apenas no formato e na decoração, mas principalmente na possibilidade de interação entre alunos. Em ambientes devidamente mediatizados, essa interação ocorre de forma apropriada, e as conversas restringem-se aos momentos adequados ou à participação ativa na construção do conhecimento. Em outros, a interação virou, na verdade, “farra” e são comuns as notícias em veículos de comunicação e os vídeos postados pelos próprios alunos em sites, mostrando que o limite foi extrapolado. O que poucos analisam, no entanto, é que entre o silêncio sepulcral do passado e a farra desordenada de muitas salas atuais existe um ponto em comum – a impossibilidade de aprendizagem.

O mundo das crianças tem se tornado cada vez mais ruidoso: o entretenimento é ruidoso. O ambiente familiar é ruidoso, e dificilmente uma conversa familiar (quando ocorre) deixa de ter como pano de fundo os sons de uma televisão. A escola, com sua combinação de vozes altas, brinquedos barulhentos e ambientes acústicos inadequados, é extremamente ruidosa. Os ambientes frequentados pelas crianças que vivem em centros urbanos, como os shopping centers, são altamente ruidosos.

Além do evidente prejuízo à saúde, o barulho oferece riscos para transtornos de aprendizagem. Segundo um estudo de Cohen, Glass e Singer (apud Santos, 2008), “crianças moradoras dos andares inferiores de um complexo de apartamentos e, por isso mais expostas ao tráfego próximo, apresentavam índices de desempenho na leitura piores do que as que moravam no mesmo local, mas em andares mais elevados” (p. 49). Outros estudos mostraram a correlação entre o ruído doméstico e o desenvolvimento cognitivo e a linguagem das crianças. Em uma pesquisa altamente significativa para educadores, Bronzaft e McCarthy (apud Santos, 2008), demonstraram que turmas que estudavam no lado barulhento de uma escola (próximo a uma linha de trem elevado, ou metrô), por volta da 6ª série, apresentavam atraso acadêmico de um ano em relação às que haviam estudado do outro lado da escola, em uma ala silenciosa. Posteriormente, após o isolamento acústico das salas, os alunos de ambos os lados apresentaram desempenho equivalente. Ou seja, o nível de ruído da sala interfere significativamente na aprendizagem dos alunos. Dreossi (2003) comprovou que, salas em que o ruído era superior aos níveis recomendados, as crianças tendiam a cometer mais erros nas tarefas de leitura e interpretação de texto. Martins (2005) observou que, em ambientes ruidosos, as crianças apresentavam mais trocas fonêmicas. Em outro estudo, Vallet relatou que aproximadamente três meses de trabalho escolar são perdidos em razão do ambiente ruidoso (apud Santos, 2008).

Além de fatores externos, o ruído interno das salas também pode prejudicar o desempenho dos alunos. Existe uma diferença entre a voz do professor e o ruído ambiental – enquanto o nível da fala diminui com a distância (os alunos da frente ouvem melhor, os do fundo ouvem em condições menos favoráveis), o nível do ruído se mantém uniforme em todo o espaço. Para que o grau adequado de compreensão seja atingido pelos alunos, é necessário que exista uma diferença considerável entre o volume do sinal (fala) e o ruído de fundo. Um estudo realizado em escolas de ensino fundamental de Santa Catarina concluiu que o nível máximo de inteligibilidade alcançado foi de 80% para alunos que estavam a um metro de distância do professor. Ou seja, os alunos da primeira e segunda carteira compreendiam 80% do que o professor falava. Todos os demais se encontravam em pior situação. Outros estudos mostram que, a 4 metros do professor, o aluno entende 55% do que ele diz e, a 8 metros – o fundão – compreende apenas 36% de sua fala. Para serem compreendidos, os professores teriam de emitir um sinal de 90dB, ou seja, precisariam gritar (Santos, 2008).

O que fazer diante desse quadro? Se o nível de ruído é alto, deve o professor gritar? Certamente não. Além de não ser uma atitude apropriada, o grito, além de oferecer riscos à voz do professor e à audição do aluno, faz com que, à medida que as vogais são ampliadas, as consoantes tornem-se ainda mais mascaradas, prejudicando ainda de forma mais grave o reconhecimento e a inteligibilidade da fala.

Na verdade, o trabalho da escola deve ser feito no sentido de diminuir o ruído. Em novas estruturas, é necessário utilizar materiais que auxiliem no isolamento acústico. Porém, em estruturas já existentes, esse fator está fora de controle, bem como o ruído produzido por agentes externos – trânsito, comércio e movimento próximo. É fundamental, diante desse quadro, estabelecer um ambiente em que o ruído interno seja o mínimo possível, e é justamente nesse ponto que se observa a importância de uma ação disciplinar coordenada por parte da escola. A direção da escola, assim como os professores, precisa discutir seriamente o assunto e garantir, através de suas normas, que a saúde de todos seja respeitada e um ambiente propício ao aprendizado seja cultivado.

Algumas medidas são úteis:

Conscientização dos alunos

Os alunos devem ser informados quanto à importância da manutenção do nível ideal de ruído para a própria saúde, de forma atrativa e interessante.

Conscientização dos pais

As implicações do ruído à saúde e à aprendizagem devem ser informadas igualmente aos pais. Além de ser uma comunicação útil, ela é fundamental para angariar apoio ao programa disciplinar.

Normas

Disciplina não é um problema apenas do professor que está em sala de aula, é um problema e assunto de toda a escola. É importante o estabelecimento de normas rígidas quanto à conversa inapropriada em sala de aula, seguida de um trabalho de conscientização e imposição de sanções aos resistentes. Um aluno indisciplinado não pode ter o direito de prejudicar a saúde e a aprendizagem de seus colegas. A adesão dos professores é fundamental.

Contenção máxima dos alunos em sala de aula

Aos alunos deve ser permitido sair de sua sala apenas nos momentos de intervalo ou mediante permissão criteriosa do professor. Geralmente, a reunião de muitos alunos no corredor produz ruído e prejudica várias salas de aula, e isso deve ser evitado.

Estabelecer um local de permanência para os alunos

Não deve ser permitido que fiquem nos corredores da escola produzindo ruídos. Se for possível, a escola deve ter uma sala ou ambiente reservado para a realização de trabalhos em grupo.

Equipamento de som

Em salas muito grandes ou numerosas, é importante providenciar aparelhagem de som para intensificar o sinal de fala, estabelecendo uma diferença considerável entre sinal e ruído, sem ocasionar esforço vocal excessivo ao professor.

Diminuição de períodos de recreio

Os intervalos, obviamente necessários, costumam causar um grande nível de ruído, tanto no deslocamento pelos corredores quanto na reunião de alunos no pátio. O maior número de turmas possível, de acordo com a estrutura da escola, devem ser reunidas em um único intervalo, a fim de evitar que o período ruidoso seja muito prolongado.

 

 

Referências:
SANTOS, Teresa Maria Momensohn. Ruído na escola e sua influência na aprendizagem das crianças. In: Aprendizagem, linguagem e pensamento. Rio de Janeiro: Wak, 2008.
DREOSSI, Raquel Cecília Fischer e SANTOS, Teresa Maria Momensohn. A interferência do ruído na aprendizagem. Rev. Psicopedagogia 2004; 21(64): 38-47.
JARDIM, Renata; BARRETO, Sandhi Maria; ASSUNCAO, Ada Ávila. Condições de trabalho, qualidade de vida e disfonia entre docentes. Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro,  v. 23,  n. 10, Oct.  2007 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext
&pid=S0102-311X2007001000019&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 18  Jan.  2012.
Imagem: Paula Lobo