“Era uma vez uma criança… que estava na companhia de um adulto… e o adulto tinha um livro… e o adulto lia. E a criança, fascinada, escutava como a língua oral se torna língua escrita. A fascinação do lugar preciso que o conhecido se torna desconhecido. O ponto exato para assumir o desafio de conhecer e crescer.” Emília Ferreiro

O letramento literário difere de outros tipos de letramento porque a literatura ocupa um lugar único em relação à linguagem. Segundo Cosson4, ela é capaz de “tornar o mundo compreensível transformando a sua materialidade em palavras de cores, odores, sabores e formas intensamente humanas”. Maria Helena Martins7 chama esse tipo de leitura de sensorial, pois envolve os sentidos – visão, tato, audição, olfato e paladar – como referenciais elementares do ato de ler. Em seu livro O que é leitura?, a pesquisadora destaca os estudos de Frank Smith, psicolinguista norte-americano, que considera a leitura uma experiência pessoal, sendo que o leitor participa dela com uma aptidão que não depende somente da decodificação de sinais, mas sim da capacidade de dar sentido a eles e compreendê-los.Para Cagliari3, a atividade fundamental desenvolvida pela escola para a formação dos alunos é a leitura. O autor enfatiza que:

De tudo o que a escola pode oferecer de bom aos alunos é a leitura, sem dúvida, o melhor, a grande herança da educação. É o prolongamento da escola da vida, já que a maioria das pessoas, no seu dia a dia, lê muito mais do que escreve. Portanto, deveria se dar prioridade absoluta à leitura no ensino da língua portuguesa, desde a alfabetização.

Essa concepção está em consonância com a noção de letramento literário de Magda Soares8. Quando ela explica sobre os “caminhos e descaminhos” do processo de alfabetização e letramento, enfatiza a importância de aplicar, na sala de aula, práticas sociais de leitura e de escrita. Explica, ainda, sobre as facetas da aprendizagem, destacando:

  • a faceta fônica: desenvolvimento da consciência fonológica relações grafema/fonema;
  • a faceta da leitura fluente: reconhecimento de palavras e sentenças;
  • a faceta da leitura compreensiva: ampliação do vocabulário e desenvolvimento de habilidades de interpretação, avaliação e inferência, principalmente;
  • a faceta da identificação e do uso adequado das diferentes funções da escrita: gênero e tipo textual, interlocutor/destinatário.

Soares9 salienta, ainda, que a adequada escolarização da literatura é aquela que direciona às práticas de leitura que ocorrem no contexto social, às atitudes e aos valores que correspondem ao tipo de leitor que está em formação. Tece um argumento que se encontra em consonância com o pensamento de muitos educadores brasileiros:

À medida que o analfabetismo vai sendo superado, que um número cada vez maior de pessoas aprende a ler e a escrever, e à medida que, concomitantemente, a sociedade vai se tornando cada vez mais centrada na escrita (cada vez mais grafocêntrica), um novo fenômeno se evidencia: não basta apenas aprender a ler e a escrever. As pessoas se alfabetizam, mas não necessariamente adquirem a competência para usar a leitura e a escrita, para envolver-se com as práticas sociais da escrita: não leem livros, jornais, revistas, não sabem redigir um ofício, um requerimento, uma declaração, não sabem preencher um formulário…

Diante dessa crise da leitura, qual é o papel dos educadores, sobretudo dos que lecionam para os anos iniciais da Educação Básica? A função primordial do professor é criar condições para que a criança realize sua experiência literária. Martins explica que é necessário alfabetizar, propiciar acesso aos livros e dialogar com os leitores em formação sobre suas leituras e sentidos atribuídos a elas. A leitura para fruição, compreendida como aquela voltada para o prazer, no sentido atribuído por Roland Barthes2 em seus estudos sobre o prazer do texto, é responsável pela formação de leitores, pois possibilita a autonomia do leitor, a começar pela escolha do gênero textual a ser lido.

Bakhtin1 afirma que a vida é dialógica por natureza, ou seja, viver significa participar de um diálogo em que é possível interrogar, escutar, responder, concordar e discordar. A interlocução na escola precisa ser um princípio. É importante que o professor oportunize aos estudantes momentos de leitura prazerosa, nos quais tenham contato com a leitura em voz alta realizada pelo educador e possam também manusear livros que contemplem diversos gêneros textuais e temáticas. Em seguida, é fundamental que se dialogue sobre a leitura feita.

Sobre que forma composicional deve ser privilegiada na escola, Emília Ferreiro5 é enfática:

Deve-se iniciar as crianças primeiro nos textos narrativos e depois, paulatinamente, em outros tipos de textos? A resposta é imediata: a exigência fundamental dos tempos modernos é circular entre diversos tipos de textos. Não existem textos privilegiados, mas sim exposição simultânea à diversidade (tal como é o caso na aquisição da língua oral). Ser leitor crítico e ter critérios para poder selecionar não são objetivos que possam ser postergados para os últimos anos do Ensino Fundamental.

Também é essencial que o professor apresente aos alunos tanto livros canônicos quanto contemporâneos, por meio de metodologias inovadoras e lúdicas, projetos que contemplem também a apreciação estética da literatura, pois o tratamento didático da língua pressupõe algo além dos aspectos cognitivos e engajados – ainda que esses sejam essenciais ao ensino, formar leitores significa educar para a sensibilidade e a cidadania.

Segundo Geraldi6, a fruição do texto é a que mais contribui para o desenvolvimento e a consolidação do gosto pela leitura:

Com “leitura-fruição do texto” estou pretendendo recuperar de nossa experiência uma forma de interlocução praticamente ausente das aulas de Língua Portuguesa: o ler por ler, gratuitamente. E o gratuitamente aqui não quer dizer que tal leitura não tenha um resultado. O que define este tipo de interlocução é o “desinteresse” pelo controle do resultado”. Recuperar na escola e trazer para dentro dela o que dela se exclui por princípio – o prazer – me parece o ponto básico para o sucesso de qualquer esforço honesto no “incentivo à leitura”.

Portanto, é necessário recuperar nos alunos a capacidade de se encantar com os textos, por meio da contação de histórias, de projetos que mostrem o texto em seu suporte legítimo e atividades desenvolvidas na escola que mostrem a leitura como algo prazeroso. Organizar um cantinho da leitura na sala de aula é uma ideia que incentiva a formação do leitor. O aluno, naturalmente, voltará ao texto e ao universo da leitura se a mesma é capaz de resultar em sensação prazerosa. Para que a criança se encante pela leitura, contudo, é necessário que o próprio professor seja leitor e mostre entusiasmo pela fruição do texto.

 

 

 

Referências
1BAKHTIN, M. Os gêneros discursivos. In: Bakthin, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
2BARTHES, R. O prazer do texto. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.
3CAGLIARI, L. C. Alfabetização e linguística. São Paulo: Scipione, 2005. p. 160. (Coleção Pensamento e Ação no Magistério).
4COSSON, R. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2006. p. 17.
5FERREIRO, E. Passado e presente dos verbos ler e escrever. São Paulo: Editora Cortez, 2002.
6GERALDI, J. W. Prática de leitura de textos na escola. Leitura: teoria & prática. Campinas/ Porto Alegre: ALB/ Mercado Aberto, n. 3, p. 30, jul. 1984.
7MARTINS, M. H. O que é leitura. São Paulo: Brasiliense, 2003. (Coleção Primeiros Passos, Vol. 74).
8SOARES, M. A escolarização da literatura infantil e juvenil. In: EVANGELISTA, A. A. M. et al (Orgs.). A escolarização da leitura literária: o jogo do livro infantil e juvenil. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
9______. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 25, p. 45-46. Jan./Abr. 2004.

 

Fonte: Revista CPB Educacional – 2º semestre / 2015
Imagem: Dejan Ristovski / Fotolia