Expoentes da literatura contemporânea sobre liderança, tais como Larry C. Spears, Peter Senge, Stephen Covey, James M. Kouzes, Barry Z. Posner, Ken Blanchard e outros, atestam que, desde o fim do século passado, paulatinamente, começamos a perceber que os modos tradicionais de liderança, hierárquicos e autocráticos vão cedendo espaço para um novo modelo, baseado no trabalho em equipe, na reciprocidade, na transparência e, basicamente, no cuidado. Um modelo que está voltado a compreender não só a atuação eficaz, mas também a ação voltada para a felicidade.

Nessa perspectiva, o líder entende que seu principal papel é criar as melhores condições de trabalho, promover a integração de ideias, a cooperação, a interdependência, a responsabilidade mútua para o sucesso e a comunicação aberta entre todos da organização. O sentimento do líder está menos em se considerar competente porque pensa pelos outros, porque comanda outros ou, sobretudo, porque controla situações, tarefas, processos e até pessoas, unilateralmente.

Os modelos convencionais de liderança focalizam essencialmente os aspectos relacionados com o comportamento e a personalidade dos líderes como fatores determinantes de sucesso na liderança. Deixam, entretanto, de explorar mais profundamente o lado dos líderes e seus seguidores como pessoas humanas, com seus valores pessoais, necessidades íntimas e motivos interiores. E, em última instância, são esses valores que determinam quem e o quê as pessoas realmente são. Nesse contexto, a Teoria da Liderança Servidora apresenta-se como uma resposta a essa lacuna, enfatizando que a sua própria essência é o desenvolvimento das pessoas e sua realização pessoal, cujo crescimento e bem-estar são o objetivo último da liderança.

Assim, ser líder significa ser uma pessoa a serviço de outras, ter como satisfação pessoal a realização dos companheiros, ver no crescimento e progresso dos seus seguidores o seu próprio avanço e desenvolvimento, e, no bem-estar de cada um, o seu próprio bem-estar. É assim que cresce o líder com a visão de servir: fazendo os outros crescerem. As pessoas não se lembram de nós por aquilo que fazemos em benefício próprio. Elas se lembram pelo que fazemos por elas e para elas.

Para Blanchard (2007), líderes servidores entendem que seu papel é ajudar as pessoas a alcançarem suas metas. Eles estão constantemente tentando colocar a visão em prática e descobrir as necessidades de seu pessoal para ter um bom desempenho. Líderes servidores não querem que os colaboradores simplesmente os agradem, mas querem fazer a diferença na vida dos colaboradores, e, além disso, causar um impacto positivo na organização. Segundo Covey (2005), líderes servidores enxergam as pessoas como um todo: corpo, coração, mente e espírito – e trabalham para liberar todo o seu potencial criativo. Os principais autores sobre liderança servidora identificam uma lista de características consideradas indispensáveis para o desenvolvimento de um líder servo. Essas características podem ser resumidas e descritas da seguinte maneira:

Usa o poder da persuasão

O líder servo se apoia mais na persuasão do que na autoridade hierárquica ao tomar decisões. É hábil em promover o consenso dentro de um grupo.

Promove o trabalho em equipe

A liderança servidora junta as pessoas, age criativamente, assume riscos, inventa, consola, inspira e produz.

Escuta o coração

Os líderes sempre foram valorizados pela capacidade de se comunicar e de tomar decisões. O líder-servo, além de utilizar esses importantes atributos, entende que é preciso reforçá-los pela profunda disposição de ouvir atentamente o que os outros têm a dizer.

Tem consciência de si

O esforço por uma liderança eficaz deve começar pela busca do autoconhecimento. A consciência por si só não é um consolo – às vezes, traz justamente o contrário. Ela perturba e faz despertar. Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta. Os líderes mais capazes tendem sempre a ser plenamente despertos e um pouco incomodados.

Conceitua

O líder-servo tem capacidade de pensar além das realidades do dia a dia e focar grandes sonhos. O administrador que deseja ser um líder-servo deve alargar seus horizontes de forma a incluir o pensamento conceitual de bases mais amplas. Os líderes-servos são chamados a buscar um delicado equilíbrio entre o pensamento conceitual e a concentração no cotidiano.

É compromissado com o crescimento das pessoas

A liderança servidora se compromete a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para estimular o crescimento pessoal, profissional e espiritual dos liderados. Ele se interessa mais pelo sucesso alheio do que pelos seus interesses próprios. Sua maior realização é ver o triunfo das pessoas a quem ele serve.

Promove o senso de comunidade

Nenhum de nós existe independentemente das nossas relações com os outros. O poder nas organizações vem da capacidade gerada pelos relacionamentos. Os seres humanos têm uma capacidade inata para a inteligência coletiva. Podem aprender a pensar juntos, e esse pensamento colaborativo pode levar a uma ação coordenada.

Em suma, líderes servidores entendem que o sucesso na liderança, o sucesso nos negócios e o sucesso na vida foram, são e continuarão a ser função da capacidade de trabalhar e agir em conjunto. O êxito na liderança dependerá inteiramente da capacidade de construir e manter relacionamentos que permitem às pessoas realizar seguidamente coisas extraordinárias.

 

 

Referências
BLANCHARD, Ken. et al. Liderança de alto nível. Porto Alegre: Bookman, 2007.
COVEY, Stephen. R. O 8º hábito: da eficácia à grandeza. Rio de janeiro: Campus, 2005.
KOUZES, James. M.; POSNER, Barry. Z. Líder mestre. Rio de Janeiro: Campus, 2007.
_________ . O novo desafio da liderança. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2008.
MARINHO, Robson. M. Liderança em teoria e prática. In: OLIVEIRA, J. F.;
_________ . Liderança: uma questão de competência. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2006.
SENGE, Peter. M. A quinta disciplina: a arte e a prática da organização que aprende. 21. ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 1994.
SPEARS, Larry. C. O líder-servo: rumo a uma nova era de dedicação e amor ao próximo. In: RENESCH, John. Liderança para uma nova era: estratégias visionárias para a maior das crises do nosso tempo. 9. ed. São Paulo: Cultrix, p. 209-220, 1994.
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