Estudar a língua como atividade cognitiva, histórica e social implica concepções definidas de linguagem, língua, discurso, texto, tipo de texto e gênero textual, a fim de traçar suas funções, limites e possibilidades.

Para Koch e Elias (2006), as concepções de língua como representação do pensamento, como código ou como simples instrumento­ de comunicação, pressupõem sujeitos – donos de vontades e ações que devem ser captadas por outros – determinados pelo sistema linguístico.

Necessariamente, tais concepções conduzirão às noções de texto como produto do pensamento do autor ou como produto da mera decodificação do leitor ou ouvinte, bastando a ele apenas o conhecimento do código utilizado. Nesse sentido, a leitura será entendida tanto como “a atividade de captação das ideias do autor, sem se levar em conta as experiências e os conhecimentos do leitor, a interação autor–texto–leitor com propósitos constituídos sócio-cognitivo-interacionalmente” quanto “como uma atividade que exige do leitor o foco no texto, em sua linearidade, uma vez que ‘tudo está dito no dito” (KOCH; ELIAS, p. 9 e 10).

Só produzimos linguagem quando produzimos discurso. Esse é o modo como o homem diz algo para alguém, num contexto histórico específico, definido por escolhas que não são aleatórias, mas demarcadas por condições peculiares, decorrentes da visão de mundo, convicções, opiniões, posição social das pessoas envolvidas. Tais condições determinam o gênero textual no qual o discurso se realiza numa dada esfera de circulação. Essa atividade discursiva se manifesta por meio do texto.

O texto, por sua vez, é entendido tanto como objeto de significação – um todo organizado – quanto como objeto de uma cultura, inserido em uma sociedade e determinado pelas instituições sociais que o fazem circular. Logo, seu sentido primário depende desse contexto sócio-histórico.

Em linhas gerais, o texto se materializa de forma verbal (oral ou escrita), visual, gestual e sincrética (mista). Assumindo uma ou várias formas simultaneamente, ele varia em função de sua finalidade predominante: informar, convencer, emocionar, entreter, anunciar, instruir, levar à reflexão e outras. A esfera de circulação e a finalidade predominante orientarão sua organização, sua forma composicional, seu estilo e, portanto, seu tipo e gênero.

Entende-se por esferas os agrupamentos de práticas e atividades sociais, organizadas por determinados contextos, tais como: íntimo, familiar, cotidiano, escolar, científico, jornalístico, publicitário, artístico, religioso, jurídico, burocrático. Os gêneros discursivos circulam em diferentes esferas e ganham as características delas. As esferas são motivadas por fatores culturais, tecnológicos, lugares e práticas interacionais, possibilitadas por determinada sociedade.

É importante estabelecer a diferença entre tipos e gêneros textuais. A expressão tipos textuais, segundo Werlich e Adam (citados por Marcuschi, 2005), refere-se às sequências tipológicas de base, como: descritiva, narrativa, expositiva, argumentativa e injuntiva. São assim chamadas porque apresentam traços linguísticos predominantes que formam, segundo Marcuschi, não um texto, mas uma sequência.

Já a expressão gênero discursivo diz respeito a ações sociodiscursivas e interativas, que se multiplicam pela intensidade de uso nos vários suportes da comunicação. São exemplos de gêneros discursivos: bate-papo, cardápio de restaurante, telefonema, anúncio publicitário, aviso, memória, crônica, sermão religioso, apresentação de amigos, reza, chat, solicitação de informação. Os gêneros prefiguram as ações de linguagem possíveis e são concretizados conforme a audiência, o objetivo, a situação comunicativa e as escolhas do interlocutor. Eles têm certa estrutura definida por sua função.

Como já afirmamos, os gêneros discursivos diferem conceitualmente de tipologia textual, que se refere à natureza linguística de composição ou de produção do texto. Eles se caracterizam por uma forma de ação social e são considerados como:

  • fenômenos históricos vinculados à prática cultural, resultante de atividade coletiva em qualquer situação comunicativa;
  • eventos textuais altamente maleáveis, dinâmicos e plásticos;
  • práticas sociodiscursivas, para agir sobre o mundo e dizer o mundo;
  • textos materializados, que envolvem sequências tipológicas (MARCUSCHI, 2003).

Assim, os gêneros são formas de ser que envolvem os formatos dos textos, como a forma de composição, os temas e o estilo de linguagem.

Alguns gêneros orais e escritos contemplados nos fascículos de Língua Portuguesa do Sistema Inter@tivo de Ensino, aos quais correspondem domínios sociais de comunicação e aspectos tipológicos, são apresentados a seguir, com base em Joaquim Dolz e Bernard Schneuwly – autores que estabelecem diferenças entre tipo e gênero textual.

A maneira como entendemos esses conceitos determina o modo com o qual lidamos com as atividades de leitura, compreensão e produção textual em sala de aula. As aulas de Língua Portuguesa não podem se restringir aos conteúdos exclusivamente gramaticais, pois eles não são suficientes para o leitor construir “um sentido que seja compatível com a proposta apresentada pelo seu produtor” (ELIAS; KOCH, 2006, p. 8).

Vale lembrar que, em razão de a língua se materializar por meio de registros linguísticos escritos e orais, não podemos preterir as atividades que incluam práticas orais de linguagem. Embora seja a atividade mais essencial no cotidiano da maioria dos cidadãos, a oralidade aparece minimamente como objeto de ensino em materiais didáticos.

Conscientes de que a escrita e a oralidade são “sistemáticas, regradas, valiosas e capazes de expressar tudo o que podemos pensar” (MARCUSCHI, 2004), a coleção InterAtiva e o Sistema Inter@tivo de Ensino apresentam a análise e a interpretação tanto de textos escritos baseados em experiências orais quanto de transcrições de textos orais, baseadas em gravações, uma vez que ambas são modalidades de uso da mesma língua.

Dessa forma, os materiais de Língua Portuguesa do Fundamental II e Ensino Médio têm como intencionalidade introduzir os interlocutores progressivamente em um trabalho didático que considere uma abordagem enunciativa da linguagem, a fim de descrever e interpretar gêneros do discurso em português, considerando as esferas de circulação da linguagem, as condições de produção dos gêneros e, na medida do possível, as regularidades linguísticas e discursivas próprias de cada gênero.

Se nos sujeitarmos a um tipo de ensino que ignora tais pressupostos, seremos, como autores e professores, agentes de um ensino que caracterizaria a aula de Língua Portuguesa muito mais como reconhecimento e reprodução do que como conhecimento e produção.

 

Autores de Língua Portuguesa da Coleção InterAtiva e do Sistema Inter@tivo de Ensino.
Leia na íntegra as “Orientações ao Professor” em: <https://goo.gl/JWL9rF>. Acesso em: 30 jan. 2017.

 

Fonte: Revista CPB Educacional – 1º semestre 2017.
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