“Em se tratando de educação, excelência é o mínimo desejável”. Frase enérgica de um homem que completou 90 anos de idade, dos quais, 60 foram dedicados ao magistério. O professor Orlando Rubem Ritter continua a inspirar, por meio de seu exemplo, a vida de centenas de educadores e outros profissionais, não apenas daqueles que foram seus alunos, mas também dos que acompanham o seu legado.

Filho de Germano Guilherme Ritter e Irma Julieta Nagel, Orlando Rubem Ritter nasceu em Porto Alegre, no dia 2 de maio de 1924. Em 1938 começou a estudar no Colégio Adventista com o objetivo de se tornar pastor. Ao concluir os estudos do Ensino Médio, a pedido de líderes educacionais, aceitou o desafio e cursou Matemática na Universidade de São Paulo (USP), a fim de ser professor no próprio colégio.

Na década de 1950 passou a lecionar Astronomia e Ciência e Religião para o curso de Teologia, o que o motivou ainda mais à militância criacionista e a contribuir também para o surgimento da Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), fundada em 1972 pelo Dr. Rui Carlos de Camargo Vieira, então diretor da Escola de Engenharia de São Carlos.

Após atuar vários anos como professor, partiu com a família para os Estados Unidos, onde cursou mestrado em Educação com ênfase em Administração Escolar, na Andrews University, Michigan. Essa qualificação o habilitou ainda mais para atuar, por quase duas décadas, como diretor da Faculdade Adventista de Educação (FAED).

Casado com Edda Balzi Ritter, tem quatro filhos: Marli, Marlene, Orlando Mário e Marilei. Acompanhe a seguir a entrevista concedida à revista CPB Educacional, na qual o professor Orlando Rubem Ritter fala sobre sua carreira e os desafios da educação cristã na atualidade.

Quando o senhor era estudante já se imaginava um professor? O que o levou a optar por essa carreira?
Quando eu nasci, meu pai queria que eu me tornasse um pastor. Com esse ideal, fui estudar no CAB – Colégio Adventista Brasileiro (atual Unasp, campus São Paulo). Quando eu estava próximo de terminar o Ensino Médio, houve um esforço da parte dos líderes educacionais para prover professores para o colégio. Então escolheram dez bons alunos para entrarem na Universidade de São Paulo (USP) a fim de que estudassem para se tornar professores. Eu fui um dos escolhidos. Fiquei numa dúvida muito grande, pois essa não era a vontade do meu pai, mas acabei optando por me tornar professor. Meu pai não gostou muito disso, aliás, ficou bastante preocupado, mas isso eu compensei mais tarde ao me tornar pastor e cuidar de igrejas também.

Quem foi a sua referência como professor?
Eu tive bons professores no Colégio, os quais me ajudaram a estabelecer meus ideais. Menciono Siegfried Schwantes e Renato Oberg, que me motivaram a decidir pela carreira do magistério. Eles se tornaram uma boa referência em minha vida. A ação conjunta de um bom corpo docente influenciou muito para que eu decidisse que a carreira de professor seria boa para mim também.

Qual a essência da educação cristã e quais seus principais desafios?
A educação cristã é integral. Ela considera o homem como um todo, não visa apenas aos aspectos intelectuais. Vai muito além. Educar é desenvolver amplamente uma pessoa, em todos os níveis. Até no Ensino Superior há a preocupação em relação à pessoa como um todo. A educação cristã é essencial, porque a formação ocorre ao longo da vida. Com o tempo e com a modernidade esse ideal tende a se perder. Em minha carreira como educador eu sempre falo: eu comecei lecionando, depois continuei professorando e logo mais comecei a ser educador; passei a educar – que é considerar o estudante como um todo. E assim eu considerava os meus alunos.

Ao longo desses 60 anos atuando como educador, o senhor participou da formação de centenas de professores. O que mais o marcou?
O que mais me marcou foi o relacionamento pessoal com eles. Seja em um curso, seja em outro, nós tínhamos certas normas, certos padrões, mesmo no relacionamento dentro da sala de aula, no modo de ser, no modo de comparecer à aula. Creio que educação é um relacionamento pessoal que marca os indivíduos. Eu percebo que esse relacionamento marcou essa gente até hoje. Eu encontro essas pessoas e elas se recordam com saudade daquele tempo.

Com o aumento da tecnologia educacional, o ato de educar está se tornando cada vez mais desafiador?
Está, porque tem sido dada maior ênfase aos aspectos tecnológicos. Há muito de computador, internet e coisas semelhantes e, de fato, são uma boa ferramenta para a educação, mas isso hoje é levado ao extremo em detrimento de aspectos pessoais da educação. Especialmente no fato de o professor ser um modelo. Na educação moderna o professor não é o modelo, pois o importante é aquilo que ele está ensinando. Essa falta de modelagem pessoal prejudica a formação. Os alunos são instruídos, mas não são moldados. Então é preciso compensar isso com a tecnologia. Alguns pensam que a tecnologia é o segredo da educação, mas não pode ser bem-sucedida em detrimento de aspectos sociais. O professor ainda é na sala de aula um modelo para os alunos. Quer ele queira ou não, ele está inspirando os alunos por meio do seu exemplo. Ele ensina por aquilo que fala e por aquilo que é.

O senhor sempre costuma citar a frase: “Em se tratando de educação, excelência é o mínimo desejável”. O que é ser um educador por excelência?
A excelência, no sentido absoluto, é inatingível para nós, humanos. A busca da excelência deve ser nossa grande preocupação. Quando digo excelência, quero dizer fazer o melhor possível no contexto em que nos encontramos. O melhor possível em todas as áreas educacionais, seja no exercício da profissão, seja no espaço físico, nos espaços educacionais; sempre primar pelo melhor. Isso quer dizer que estamos buscando a excelência.

 

“Aplique sabiamente as experiências do passado e, com seus alunos, construa agora o amanhã, pois o futuro começa hoje.” Veja mais em Pequenas lições para um grande professor.

 

Fonte: Revista CPB Educacional – 2º semestre 2014.