Como diretor de educação de uma Associação da Igreja Adventista, uma de minhas principais responsabilidades era visitar escolas e avaliar o desempenho de professores em sala de aula. Em uma manhã triste de novembro, fui a um colégio e me dirigi até a sala do diretor. Na sala de espera, havia duas alunas do 4º e 6º ano, da professora Susan1, esperando para falar com o diretor. O secretário mencionou casualmente que outro aluno, da mesma classe, estava falando com ele.

Continuei caminhando pelo corredor e vi um aluno sentado, no chão, do lado de fora da sala de aula da professora Susan. Aquilo não era um sinal encorajador! Entrei pela parte de trás da sala de aula e posso dizer que as coisas não estavam indo muito bem para aquela professora experiente.

Os alunos estavam agrupados em pequenos grupos ao longo da sala de aula, gritando uns com os outros e com os alunos de outros grupos. A professora estava tentando, sem sucesso, obter a atenção deles, mas a classe parecia determinada a ignorá-la.

Ao contemplar aquela cena, tive que me segurar para não intervir e tentar restaurar pelo menos um pouco da ordem. Mas resisti à tentação administrativa de “assumir” e resolver os problemas imediatos da professora. Em vez disso, respirei fundo e me perguntei três coisas: (1) O que havia de errado naquela sala de aula? (2) Como o diretor poderia ajudar Susan? (3) Algum tipo de plano disciplinar geral da escola poderia ter evitado o caos na sala de aula da professora Susan? Essas três questões são o foco central deste artigo. Mas, primeiramente, vamos esclarecer algumas questões importantes envolvidas na disciplina e na gestão de sala de aula de uma escola cristã.

 

A porta giratória do escritório do diretor

Professores com desafios relacionados à gestão de sala de aula é um problema que todo diretor enfrentou ou enfrentará, mais cedo ou mais tarde. Problemas de disciplina não se limitam a professores novatos. Porque Susan tinha três anos de experiência, alguém poderia esperar que ela fosse capaz de manter o controle da sala de aula. No entanto, ela precisava de uma ajuda substancial. Primeiramente, ela deveria entender que enviar alunos para o diretor para que sejam disciplinados não resolveria seus problemas sobre gestão de sala de aula. Jones2 observa que, embora tenha sido repetidamente provado que enviar alunos para a sala do diretor não previna nem cure o mau comportamento, todo mundo parece convencido de que isso deveria funcionar.

Então, por que os professores continuam usando essa tática? Porque enviar uma criança desagradável e desrespeitosa para a diretoria fornece uma solução instantânea para um problema imediato. Se os diretores fecharem a porta e se recusarem a lidar com alunos problemáticos, isso vai produzir rapidamente alegações de que eles não apoiam seus professores. Então, o diretor atende aos piores casos, faz um breve monólogo sobre cidadania e responsabilidade e, em seguida, ele os envia de volta para a sala de aula. Pelo fato de outros alunos estarem esperando para ser atendidos e uma centena de outros itens administrativos precisarem de sua atenção, o diretor pode dar ao assunto apenas uma atenção superficial, que pouco contribui para resolver os problemas subjacentes.

 

Correção de curso necessária

Os fatos são claros. Susan precisa adotar novas técnicas relativas à gestão de sala de aula para que possa, com sucesso, prover a instrução que seus alunos merecem. Ela precisa estabelecer rotinas diárias, métodos e procedimento de classe. No entanto, ela também precisa de ajuda para entender o que está causando os problemas atuais em sua sala de aula. Sem uma avaliação completa do que está funcionando e do que não está, ela será incapaz de determinar como proceder.

Além disso, Susan precisa saber que ela pode usar técnicas baseadas em pesquisa e estratégias para resolver seus problemas de disciplina. Já que Tom teve uma década bem-sucedida de experiência de ensino em sala de aula, ele precisa observar as aulas de Susan e, em seguida, pedir-lhe para refletir sobre como as coisas estão indo em suas aulas. Isso pode começar com uma pergunta simples: “O que está funcionando e o que não está?”

Francamente, se um professor não reconhecer suas deficiências de gestão e apenas culpar os alunos, seus pais e/ou a falta de apoio administrativo (a queixa mais comum), então temos aí um problema grave. Poderia ser melhor para tal indivíduo começar a procurar outra vocação.

Após a fase de reconhecimento, um plano e um cronograma específico em busca de melhoras devem ser desenvolvidos. Qualquer que seja o curso seguido e onde quer que seja desenvolvido, existem várias etapas fundamentais: o reconhecimento do que precisa ser corrigido, uma atenção significativa ao desenvolvimento e à implementação de um plano viável e a consciência e de que toda mudança começa com pequenas e não com grandes medidas. O plano deve basear-se em duas ou três práticas básicas relativas à gestão de sala de aula.

Na área de organização da sala de aula, Susan precisa aprender a organizar as carteiras, mesas e computadores de uma forma que seja propícia para facilitar o gerenciamento da sala de aula. As salas de aula devem fazer os alunos se sentirem bem-vindos, incentivados à participação e aptos para as experiências de aprendizagem em uma infinidade de formas. Espelhos de classe são, portanto, uma parte importante da organização da sala de aula.

Muitos professores argumentam que a preparação da aula é a chave para o sucesso em classe. Susan deve refletir acerca do tempo dedicado à preparação de suas aulas, se ele é suficiente ou não. Os alunos estão recebendo a ajuda individualizada de que precisam? Como tem sido com aqueles que terminam toda a lição rapidamente? Será que eles “ficam de bobeira” porque estão entediados? Que atividades ela pode planejar para preparar os alunos a passar facilmente de um assunto para o próximo?

Finalmente, como está a rotina da sala de aula? Será que a professora apresenta as expectativas de comportamento de modo claro e as coloca onde sejam visíveis a todos os alunos? Será que ela regularmente revisa e destaca esses pontos importantes com a classe?

Essas são algumas questões básicas que um diretor pode enfatizar ao ajudar um professor que está passando por dificuldades.

Durante todo o processo, o diretor Tom deve desempenhar um papel significativo. A cada semana, ele ou um mentor designado devem observar a sala de aula de Susan para verificar seu sucesso e fornecer uma resposta específica. Dessa forma, o mentor ou o diretor podem ajudar Susan a obter uma percepção sobre como ela está se saindo em três áreas-chave: organização da sala de aula, preparação das aulas e rotina de sala de aula. Susan também deve ser incentivada a participar na reflexão escrita e oral sobre seu progresso. Conforme o tempo passa, o papel do diretor/mentor deve diminuir. Se, no entanto, uma melhoria significativa não ficar evidente até o início da primavera, não deve ser oferecido a Susan um contrato para o próximo ano.

Ajudar apenas um professor com os desafios de gestão de sala de aula pode ser uma tarefa demorada para o diretor. Mas o que o diretor deveria fazer se um número considerável de professores em sua escola estiver enfrentando lutas semelhantes?

 

O caso para um sistema escolar amplo

A escola que visitei tem cinco professores, três deles são novatos, além de um novo diretor! Como Susan, os professores novatos das turmas de pré e do 7º e 8º ano estão enfrentando alguns desafios com a gestão de sala de aula. Será que todos eles se beneficiariam com a implementação de um sistema de disciplina amplo em toda a escola?

Resumindo uma pesquisa recente, Protheroe registra que “uma abordagem com toda a escola voltada para a disciplina que seja concentrada, pró-ativa e consistente tem mais probabilidade de ser eficaz do que uma abordagem utilizada por muitas escolas que enfoca cada sala de aula”.3 Há uma série de variações de abordagens para a questão disciplinar em toda a escola, todas elas enfatizando expectativas comportamentais consistentes em todo o ambiente escolar e em cada sala de aula. Todos os funcionários da escola, incluindo porteiros, secretárias e motoristas de ônibus adotam e uniformemente implementam essas estratégias.

De acordo com Horner, Sugai e Horner,4 as escolas precisam definir, ensinar e apoiar os comportamentos esperados dos alunos. Em vez de usar métodos punitivos de disciplina depois que os alunos se comportam mal, eles admoestam os administradores a serem pró-ativos e com visão de futuro ao fornecer uma sólida base de apoio para a disciplina escolar.

A pesquisa descobriu que as instituições com planos de comportamento para toda a escola geralmente empregam sete elementos comuns:

  1. Elas se concentram em uma abordagem, baseada no trabalho em equipe, formada por professores, pessoal de apoio (secretárias, motoristas de ônibus, faxineiros) e administradores, cada um dos quais compartilha as mesmas expectativas com relação ao comportamento do aluno.
  2. As expectativas de comportamento são poucas, em número reduzido (geralmente de 3 a 5) e são colocadas de forma positiva. Os exemplos podem incluir afirmações como: “Seja responsável”, “Seja respeitoso”, “Seja gentil”, “Seja honesto” e “Seja cortês”.
  3. As expectativas de comportamento na escola e na sala de aula são revistas regularmente com todos os alunos.
  4. Os planos incluem um sistema proativo para encorajar e recompensar o comportamento positivo, como fichas ou cupons. A chave é recompensar abertamente os alunos por atender às expectativas de comportamento.
  5. Os professores e administradores chegam a um acordo com relação aos comportamentos que serão tratados em sala de aula e quais serão enviados ao diretor.
  6. Os planos delineiam medidas ou consequências específicas que resultarão das infrações de regras específicas garantindo que os procedimentos consistentes e previsíveis ocupem lugar quando uma regra for quebrada.
  7. Por fim, cada plano inclui uma equipe de apoio que administra uma avaliação regular usando procedimentos cuidadosamente definidos. Os dados vindos do diretor de disciplina acerca das infrações registradas e as averiguações do pessoal de apoio serão recolhidos, organizados e revistos para proporcionar uma tomada de decisão baseada em informações vindas das áreas em que a equipe de apoio deve concentrar seus esforços.

A pesquisa sobre sistemas de gestão de comportamento em toda a escola é bastante encorajadora. No entanto, essa abordagem consome uma quantidade considerável de tempo pessoal e energia. Obter consenso, construir e manter um conjunto de expectativas positivas requer um compromisso de longo prazo. Além disso, o sucesso só será alcançado por meio da cooperação entre professores e pais.

Para uma melhoria duradoura nos padrões de comportamento do aluno na escola, os pais devem ser orientados a empregar medidas semelhantes de comportamento em casa. Uma parceria positiva entre o lar e a escola vai exigir comunicação e colaboração permanentes.

 

Conclusão

Comportamentos de indisciplina em sala de aula e em toda a escola são inevitáveis. Eles podem acontecer na sala de aula do professor novato ou na do veterano com 20 anos de escola, mas que enfrenta uma classe “perigosa”. Os diretores devem colaborar com os professores na implementação de programas que ensinam os alunos a lidar construtivamente com os conflitos.

Quanta assistência deve ser prestada ao professor individualmente? O mito de que enviar alunos para a sala do diretor vai produzir uma transformação radical em seu comportamento é apenas isso, um mito. Em geral, os problemas de rotina de gestão de sala de aula devem ser tratados pelo professor em sala de aula.

Uma abordagem cada vez mais popular é a de um sistema para toda a escola ou um plano que seja totalmente aprovado e apoiado por professores, pelo pessoal de apoio e pelos pais. Clareza ao estabelecer expectativas de comportamento deve ser combinada com reforço consistente. O sucesso exige uma clara liderança administrativa e apoio constante de toda equipe da escola, bem como apoio dos pais.

Quando todos os adultos com uma participação no sucesso dos alunos colaboram para implementar uma abordagem disciplinar consistente e redentora, é possível prevenir comportamentos destrutivos e preparar os alunos para sua autogestão e para uma vida produtiva aqui na Terra e no reino celestial.

 

 

Bibliografia complementar sugestiva em português:

Gibbs, Ollie e Haddock, Jerry. Sala de aula: disciplina e gestão (São Paulo, SP: ACSI)

Lemov, Doug. Aula nota 10: 49 técnicas para ser um professor campeão de audiência (São Paulo, SP: Fundação Lemann, 2011).

Menslin, Douglas O que esperam de mim como professor da Rede Adventista: Uma visão panorâmica das funções do magistério na Educação Adventista (Curitiba, PR.: DVK Editora, 2013).

Nelsen, Jane. Disciplina positiva (São Paulo, SP: Editora Cultrix, 2007).

Suárez, Adolvo Semo. Sou professor e agora? Sugestões para a prática de um magistério cristão e eficaz. (Engenheiro Coelho, SP: UNASPRESS, 2004).

 

 


 

NOTAS E REFERÊNCIAS
  1. Os nomes usados neste artigo são pseudônimos.
  2. Frederic H. Jones, Chapter 16–Back-Up Responses Beyond the Classroom, Cap. 16 (2000). Acessado em 9 de novembro de 2010. Disponível em: http://www.fredjones.com/Positive_Discipline/Discipline_Ch16.html.
  3. Nancy Protheroe, A Schoolwide Approach to Discipline (2005), p. 1. Acessado em 3 de novembro de 2010. Disponível em: http://www.naesp.org/training=tomorrows=principals=mayjune=2005=0
  4. Robert H. Horner, George Sugai, and Howard F. Horner, “A Schoolwide Approach to Student Discipline,” The School Administrator Web Edition (Fevereiro de 2000). Acessado em 27 de julho de 2010. Disponível em: http://findarticles.com/p/articles/mi_m0JSD/is_2_57/ai_77382137/?tag=content;col1.2

 


 

Fonte: Revista de Educação Adventista Nº 36 / 2014
Imagem: Evarin20 / Fotolia – Adaptação

 

Jim Jeffery
Doutor em administração escolar e mestre em aconselhamento. Foi reitor de educação na Canadian University College, em Lacombe, Alberta. Também exerceu os cargos de diretor de educação, diretor de um colégio interno, diretor de colégio de ensino médio e fundamental.

Donna Jeffery
Especialista em educação e psicóloga escolar trabalhou em escolas públicas e adventistas.