Quando perguntei, certa vez, a um professor sobre seu planejamento de aulas, ele, que era muito brincalhão, me disse: “Quem sabe faz ao vivo!” Será que ele tinha razão?

A grande questão é que o tempo passa muito rápido, e quando menos percebemos já acabou a aula, a semana, o bimestre, o ano, e ainda não ensinamos tudo o que era preciso. O mesmo acontece em outras áreas da vida: quando vemos já acabou o ano e não fizemos aquela ginástica, não lemos aquele livro, não visitamos aquela pessoa, não fizemos aquele curso… A lista pode ser grande.

Dizem que o problema está na falta de prioridades. Provavelmente esteja, sim, na perda de tempo e na falta de um planejamento bem pensado e bem elaborado. Mas isso dá trabalho.

Tudo na vida está ligado ao custo-benefício. Na escola não é muito diferente. É verdade que o salário é um forte estímulo para se fazer um bom planejamento e ministrar boas aulas. Faz parte da lógica do mundo do trabalho. Mas outra lógica também é certa: em qualquer situação em que o professor estiver, recebendo muito ou pouco, o compromisso com a sua reputação profissional será o mesmo.

Por razões que não cabe aqui discutir, a trajetória da educação no Brasil é marcada por ondas pedagógicas. O que destacamos como herança dessa trajetória, independentemente dos avanços ou retrocessos, é a rejeição que se criou em torno da palavra planejamento, em virtude de se viver ao sabor desses ventos pedagógicos, com palavras de ordem como inovar, renovar e mudar, muitas vezes mudando tudo, inclusive o que está dando certo.

Quem não se lembra da taxonomia de Bloom? Dos objetivos procedimentais, conceituais, atitudinais (Cesar Coll)? Do aprender a conhecer, fazer, ser e conviver (Jaques Delors)? Dos objetivos essenciais e periféricos? Hoje falamos em competências e habilidades. O que muitos não percebem é que todos falam a mesma coisa com nomes diferentes.

Provavelmente, esse cenário tenha contribuído para que o planejamento seja visto por muitos professores como uma perda de tempo, um documento burocrático feito uma vez por ano para ser arquivado. Pensam que só precisam copiar e colar os conteúdos do livro didático, distribuindo-os ao longo dos bimestres ou, mais fácil ainda, que só é preciso trocar a data do planejamento do ano passado e entregá-lo para ficar livre de cobranças, pois lá na sala de aula, onde tudo acontece, o professor já sabe o que tem que fazer. Portanto, quem sabe de verdade faz ao vivo.

Problemas de indisciplina, por exemplo, podem acontecer com mais facilidade em aulas que não foram planejadas. Os alunos percebem os improvisos, sentem quando o professor está ligado no piloto automático e se aproveitam disso. A improvisação é necessária, mas não pode ser frequente. Da mesma forma, a rotina sem inspiração e sem objetivo também é percebida. Para o professor Mattos, o melhor remédio contra esses males é o planejamento.

Dificilmente se ensina a um pedreiro como assentar tijolos ou a um dentista como obturar um dente, ou a um professor como planejar as aulas. Por isso, a seguir apresentamos apenas alguns aspectos a serem considerados na elaboração do planejamento:

1. Objetivos gerais

Uma avaliação diagnóstica, tanto no início do ano como no fim, lista as dificuldades básicas apresentadas pelos alunos em sua disciplina, para que nos objetivos gerais do planejamento você possa deixar claro qual será a sua meta no novo ano. Os objetivos se referem ao desempenho esperado ao fim do processo. Se, por exemplo, o objetivo for desenvolver bons leitores, isso norteará quais desafios serão propostos em relação à leitura.

2. Conteúdos

Embora a lista de conteúdos seja pré-determinada pelo governo, pelos vestibulares e pelos livros didáticos, você pode, a partir da sua experiência e da visão que tem da sua disciplina, estabelecer a ordem de prioridades. Pode acrescentar conteúdos ou estabelecer o tempo de permanência em cada tópico ou conteúdo.

3. Objetivos específicos

Muitos cedem à tentação de pegar uma lista imensa de verbos como: conhecer, saber, compreender, etc. e tentam variá-los no início de cada objetivo. Com isso, acabam colocando qualquer verbo só para deixar a “coisa” bonita e pronta. Podem pensar: tanto faz, eu já sei o que tem que ser trabalhado sobre esse assunto. Nesse caso, o planejamento é mesmo uma grande perda de tempo.

Mas, afinal, onde está a utilidade ou a importância desses verbos? É por meio de operações mentais, como: resumir um texto, explicar uma questão, analisar um problema, comparar duas situações, etc., que o aluno desenvolve o pensamento.

Essa é a hora de definir que operações mentais se deve privilegiar na sua disciplina, e no passo seguinte, pensar como ajudar os alunos a desenvolvê-los a partir do conteúdo a ser ensinado.

4. Estratégias de ensino

Explicar bem, ter carisma, ter senso de humor e ser apresentável são fatores importantes para o sucesso do professor, mas sem um plano de trabalho que busque recursos e estratégias que despertem o interesse, muito se perderá daquilo que se poderia alcançar.

Aulas expositivas são boas quando acompanhadas de perguntas e questionamentos, mas é preciso diversificar as estratégias de ensino para atingir todos os tipos de aprendizagem. Não é bom se limitar aos exemplos e recursos trazidos pelo livro didático. Ele é um guia para o aluno, a ele devem sempre ser acrescentados outros materiais e outras fontes para enriquecer as aulas.

Aulas que envolvem movimentação, como: debate, painel, seminário e atividade em grupo ou em dupla podem dar mais trabalho, mas desenvolvem a autonomia do aluno. Por outro lado, não é prudente ceder à tentação de usá-los como uma forma de descansar um pouco. Não é difícil encontrar situações em que o professor divida os capítulos do livro entre os grupos e assim passe um bimestre vivendo de seminários.

5. Avaliação

Grande parte da frustração com as avaliações escritas nos moldes tradicionais está relacionada à sua elaboração. Ainda é comum se trabalhar de uma maneira durante as aulas e na hora da avaliação o aluno se deparar com questões que lhe pedem as tais habilidades (os verbos) colocadas nos objetivos específicos, como: “Compare os processos de formação dos Estados nacionais francês e inglês”, quando na verdade o professor não fez esse tipo de comparação durante a explicação; ele apenas falou de um e de outro.

Daí, a importância não só de variar os instrumentos de avaliação, como também de elaborar provas que exijam as mesmas operações mentais desenvolvidas durante as aulas.

 

 

Referências
ADORNO, Teodor W. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
MATTOS, Luiz Alves de. Sumário de didática geral. 12. ed. Rio de Janeiro: Gráfica Editora Aurora Limitada, 1971, p. 532.
RATHS, Louis E. Ensinar a pensar: teoria e aplicação. Tradução Dante M. Leite, 2. ed. São Paulo: E.P.U., 1977.
Fonte: Revista CPB Educacional – 2º semestre 2014.
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