Nas duas últimas décadas, a educação tem sido alvo de inúmeras novidades tecnológicas, com promessas de mudanças revolucionárias na aprendizagem dos alunos. Muitas dessas inovações foram inseridas na escola e pouco mudou na dinâmica em sala de aula. Na maior parte das vezes, a culpa é atribuída ao professor, que é rotulado, pois se julga que não esteja preparado para usar a tecnologia de forma eficiente. No entanto, será que os recursos tecnológicos que oferecemos são aquilo que os professores desejam para dar mais qualidade a seu trabalho? Quais são as principais necessidades dos professores?

Com esses questionamentos em mente, escolhi seis educadores na área de matemática e durante seis meses conversamos, pesquisamos e experimentamos novidades. Relato aqui um pouco dessa experiência, a começar pelas quatro perplexidades comuns identificadas:

Desinteresse – Por mais que os professores se esforcem para aproximar os temas curriculares da realidade dos estudantes, esses ainda demonstram pouco interesse. Cada vez os alunos realizam menos as tarefas solicitadas e também não estudam por si mesmos os temas propostos.

Feedback – Todos reconhecem que é importante ter um feedback do nível de aprendizagem dos alunos a tempo de ajustar as estratégias de ensino. No entanto, com muitos alunos em sala e várias turmas a serem atendidas, as provas acabam sendo o melhor momento para avaliar a aprendizagem, com poucas possibilidades de ajustes na rota.

Atendimento pessoal – Apesar de a aula expositiva ser a estratégia mais utilizada, todos admitem que o atendimento pessoal é o meio mais efetivo de ensinar. No entanto, como os alunos não estudam previamente, atendê-los individualmente se torna uma tarefa extenuante e pouco assertiva.

Tempo – O tempo em sala de aula é muito pouco, tendo em vista tudo que se tem para ensinar e fazer. Além disso, a excessiva carga de trabalho dos professores dificulta a reflexão, o aperfeiçoamento constante e a busca de alternativas inovadoras para sua prática.

Como aprendemos hoje?

Para entender o percurso que fizemos em nosso grupo de estudo, vejamos como normalmente se dá o ensino de Matemática. O professor faz uma boa exposição, apresentando com detalhes os conceitos matemáticos. Na aula ele apresenta exemplos práticos, resolve exercícios, responde às perguntas e fica tudo certo. Numa aula assim, os alunos entendem tudo, mas, quando chegam em casa e vão para os exercícios… a coisa muda de figura! As dificuldades surgem, e muitos desistem ou buscam soluções fáceis que não contribuem para a aprendizagem real. Dessa forma, o desânimo e o desinteresse aumentam em um ciclo vicioso. O professor canta fórmulas, conta histórias, usa computador, calculadora e parece que pouco muda.

Lancei uma pesquisa para os professores do meu grupo de estudo e verifiquei que 86% dos alunos assistem a videoaulas de Matemática, sendo que 36,7% fazem isso com frequência. Também constatei que o YouTube é o canal preferido de 66% dos alunos como fonte de aprendizagem, perdendo para o Google, com 41,4%. As facilidades tecnológicas de hoje permitem que qualquer pessoa produza e partilhe seus vídeos. Essa popularização da informação midiática tem conquistado a juventude e a nós também. Como tirar vantagem disso?

Bem, se a explicação dos conteúdos é uma necessidade, por que não gravá-la? Assim, haveria mais tempo em sala para a interação pessoal entre os alunos e o professor. Essa é a ideia inicial por trás do conceito de inversão de sala de aula. A ideia não é nova, mas os recursos tecnológicos e o momento parecem ser propícios. Observe alguns passos sugestivos neste processo de sala de aula invertida:

Transferindo a exposição para casa – Gravar videoaulas pode ser uma forma de transferir parte da exposição a ser feita em sala para outros ambientes. Para isso é preciso pensar em vídeos curtos e objetivos, com uma linguagem clara e espontânea.

Existe uma gama de aplicativos para tablets que permitem que você escreva, faça apresentações e insira voz ou imagem. Os mesmos recursos estão disponíveis para computadores com aplicativos que gravam a tela do computador. Mas, se você quiser, pode lançar mão do seu smartphone e fazer gravações, edições e publicar direto em canais de vídeo, como o YouTube.

Um receio natural é quanto à reação dos alunos. Fizemos uma experiência, gravando uma videoaula. Dos alunos pesquisados, 93,6% gostaram da iniciativa, e 56,7% disseram que dariam
preferência a vídeos de seus professores em relação a outras fontes. Pesquisas indicam que os alunos sentem-se mais próximos de seus professores quando estes usam a sua linguagem. Essa foi a experiência dos professores da equipe cujos alunos deram sugestões, ajudaram a editar os vídeos e até se ofereceram para fazer gravações. Se um dos objetivos é envolver os alunos, esse parece ser um caminho interessante.

Feedback – É bom lembrar que o segredo não está na videoaula em si, mas na metodologia e estratégia usada. Nossa proposta é que a videoaula seja apresentada virtualmente antes da aula, devendo ser uma breve exposição que impulsione os alunos a aprender por si mesmos. Para isso, é preciso associar ao vídeo um questionamento ou problema que os desafie a pesquisar ou desenvolver uma pequena tarefa de forma a ter um retorno quanto à compreensão básica do tema proposto.

Desafiados os alunos, é preciso ter um feedback adequado do seu desenvolvimento. Para isso, existem vários recursos que permitem ao professor interagir com os estudantes no ambiente virtual, com retorno rápido e prático. Destaco um sistema livre que experimentamos, o EDpuzzle. Esse sistema permite editar seus vídeos: recortá-los, inserir comentários em áudio ou legenda e, o mais importante, inserir questionamentos a serem respondidos. O professor pode então partilhar suas tarefas com os alunos e acompanhar o envolvimento deles. Num único clique pode saber quantos assistiram ao vídeo e ter o retorno às questões colocadas.

Independentemente do recurso escolhido, o importante é que o professor consiga ter um retorno fácil da participação dos alunos. O feedback é parte essencial para motivá-los e orientar a etapa seguinte, que ocorrerá em classe.

Interagindo em sala de aula – Com o passo anterior, o professor chegará à sala de aula sabendo quantos alunos participaram assistindo ao vídeo e respondendo aos questionamentos enviados como tarefa prévia. Esse deve ser o ponto de partida de sua intervenção em sala, não repetindo o que foi apresentado, mas avançando e interagindo com os alunos. Pode ser o momento para dedicar a exercícios, tarefas colaborativas e para discussão coletiva. O importante é valorizar a interação humana, que faz da escola um ambiente tão favorável à aprendizagem.

Recursos tecnológicos podem ser usados para despertar a curiosidade ou facilitar abordagens que seriam inviáveis de outra maneira. Também são úteis para obter um feedback imediato da aprendizagem dos alunos ou propiciar a participação anônima. Aplicativos como o Socrative (on-line) ou Plickers (off-line), dentre outros, podem ser usados para essa finalidade.

Não importam os recursos usados em classe, o essencial é que o professor use o tempo para se aproximar dos alunos. Ouvir suas necessidades, tirar dúvidas e induzir a aprendizagem ativa. Em minha experiência pessoal, tanto quanto com a equipe de estudos, os melhores resultados foram obtidos no contato pessoal. Nenhuma tecnologia será capaz de substituir o toque pessoal de um professor na vida de seus alunos.

Conclusão

Professores que têm experimentado a sala de aula invertida conseguem otimizar o tempo em classe, atendendo aos alunos de forma individual e obtendo feedback para orientação do processo de ensino. Como resultado, é possível reconquistar o interesse envolvendo-os num processo de aprendizagem ativa.

Eu acredito numa sala de aula interativa, onde a diferença está na ação humana, que pode até ser facilitada pela tecnologia. Mas, o segredo para tudo isso está nas mãos de professores que não desistem de sonhar! Saia da comodidade e experimente novos caminhos para ensinar!

 

 

Fonte: Revista CPB Educacional – 1º semestre 2016.