O uso de tecnologias na educação não é algo recente. Por séculos, a prática pedagógica tem sido moldada pelo uso de diversas ferramentas e métodos que aprimoram e facilitam a forma como o conhecimento é transmitido. Grandes inovações nas áreas de comunicação e de processamento, armazenamento e transmissão de informações oferecem possibilidades que nem imaginaríamos há uma década.

Embora alguns acadêmicos ainda busquem desencorajar o uso das tecnologias de informação e comunicação na sala de aula, a maioria reconhece que isso não é um fenômeno passageiro e foca seus estudos na busca de métodos racionais e eficazes para integrar a tecnologia à educação. A grande indagação da comunidade educacional não deve ser se o investimento em tecnologia vale a pena, mas como fazer para que valha.

Por que investir nas TICs?

O grande impacto que as tecnologias de informação e comunicação causou na sociedade contemporânea se deve à forma como diferentes tecnologias convergiram. Computadores, telefones móveis, câmeras portáteis, gravadores e reprodutores de som foram invenções extraordinárias, mas o que realmente mudou o mundo foi a união das funções e características individuais de cada um em dispositivos práticos leves. A ONU (Organização das Nações Unidas) estima que aproximadamente 5 bilhões de pessoas tenham acesso a telefones celulares, e cerca de 2 bilhões, à internet.

O custo reduzido de dispositivos móveis – graças à produção em massa –, o acesso à internet e a influência das redes sociais são responsáveis por transformações inéditas em nossa História. Um dos exemplos mais notórios ocorreu após a autoimolação do jovem tunisiano Mohammed Bouazizi. Fotos e vídeos de sua morte inundaram as redes sociais, inspirando a população a se organizar e exigir a democracia no país.

Em apenas dez dias, os protestos tomaram a Tunísia e levaram à fuga do presidente Zine el-Abdine Ben Ali. A divulgação massiva da revolução tunisiana incentivou pessoas em outros países do Oriente Médio e norte da África a lutarem pela democracia e por melhores condições de vida, desencadeando uma série de eventos e transformações, conhecida como Primavera Árabe.

Estudo publicado pela Universidade de Washington afirma que por meio do uso das tecnologias digitais os defensores da democracia criaram um meme pela liberdade que ganhou vida própria e espalhou ideias sobre liberdade e revolução para um número surpreendente de pessoas.

Portanto, se a tecnologia da informação e comunicação pode ser usada para alterar o cenário geopolítico de nações que vivem sob intensa pressão política e religiosa podemos concluir que, utilizada de forma planejada, seu potencial para a educação é quase ilimitado.

A tecnologia proporciona um ambiente interativo de aprendizagem permitindo que os alunos: compreendam melhor os textos teóricos por meio do uso de recursos audiovisuais e simulações em três dimensões; produzam e publiquem textos, vídeos ou outras formas de mídia na rede mundial de computadores; possam interagir e compartilhar conteúdos com estudantes do mundo inteiro; e aprofundem suas pesquisas de maneira rápida e direcionada.

As tecnologias digitais têm uma importância ainda maior para facilitar o ensino e a aprendizagem de pessoas com necessidades especiais. É possível adquirir milhares de recursos e ferramentas gratuitas em áudio, vídeo, textos com tamanho ajustável de fontes, alto contraste e cor personalizável, acesso guiado, e aplicativos desenvolvidos exclusivamente para pessoas com deficiências específicas.

Dois exemplos de destaque produzidos no Brasil são os aplicativos Hand Talk, eleito pela ONU como o melhor aplicativo do mundo para a inclusão social, desenvolvido para conversão de áudios e textos em Libras; e o Aramumo, criado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), para auxiliar no ensino de crianças com distúrbios de aprendizagem, especialmente dislexia.

Para professores, há uma infinidade de aplicativos que facilitam a gestão da sala de aula, a organização de arquivos, o treinamento profissional, a preparação de conteúdos, provas e apresentações, além dos temas específicos a cada disciplina. Os educadores e gestores escolares ainda contam com o sistema MDM (móbile device management), que possibilita o acesso e o controle dos aparelhos móveis utilizados durante as aulas.

Sucesso rápido e garantido?
Conheça alguns aspectos que precisam ser considerados para que um projeto de implantação tecnológica se torne viável e relevante.

1. Necessidade e objetivo

O primeiro passo deve ser a identificação da necessidade educacional e do objetivo que se espera atingir com a implantação tecnológica. Caso certa turma necessite melhorar a compreensão dos conceitos teóricos de uma disciplina, a mera substituição do livro didático impresso por seu equivalente em formato PDF não agregará nenhum valor à aprendizagem dos alunos. A aquisição de recursos audiovisuais ou simulações, por outro lado, será mais útil para alcançar esse objetivo pedagógico. Não importa o quanto um equipamento pareça moderno ou sofisticado, ele apenas será uma ferramenta útil se houver uma finalidade educacional que justifique sua utilização.

2. Análise do ambiente escolar

O projeto deve ter sempre como meta atingir o maior impacto educacional com o menor impacto estrutural. O sucesso estará condicionado à capacidade de adaptação dos professores e dos alunos. Primeiramente, devem ser analisadas as características físicas e geográficas da instituição, pois esses fatores definirão o tipo de tecnologia mais compatível ou as adaptações necessárias. O nível de conhecimento dos futuros usuários também deve ser levado em conta, uma vez que determinará a quantidade de recursos destinados à capacitação. Desde a análise, o projeto deve ser flexível. Todas as opções devem ser consideradas a fim de desonerar os custos sem inviabilizar o uso. Por exemplo, caso a escola opte pelo uso esporádico de tecnologias na sala de aula, o investimento em laboratórios móveis com equipamentos de alta geração será mais viável do que a aquisição em massa de equipamentos de qualidade inferior para cada um dos alunos.

3. Definição do orçamento

Calcular a previsão dos custos e definir o orçamento é uma das etapas mais complexas e que necessita da colaboração de todas as áreas envolvidas. Um erro grave é dividir essas etapas por áreas de interesse, competindo à coordenação pedagógica unicamente a definição das necessidades e objetivos educacionais; à administração escolar os equipamentos e a infraestrutura; à tesouraria o orçamento e a compra; e ao departamento de informática, apenas fazer com que os aparelhos comprados se tornem compatíveis com o sistema da escola. O orçamento e a aquisição de produtos deve ser uma tarefa conjunta que vise à economia, à eficiência e à durabilidade. Devem ser levados em conta também os custos de capacitação, manutenção e atualização.

4. Planejamento estratégico

O planejamento se destina a estabelecer estratégias, metas e prazos. Cada meta concluída deve ser analisada e serve como base para a continuidade ou redefinição das estratégias seguintes. O planejamento precisa ser objetivo e constantemente examinado, a fim de garantir a execução das metas nos prazos corretos; do contrário, corre o risco de se tornar uma mera lista de diretrizes genéricas.

5. Capacitação

A capacitação não deve ser focada em tediosas explicações técnicas e teóricas, afinal, não serão preparados professores de informática; também é importante evitar que seu conteúdo limite a criatividade dos professores com a apresentação de listas de planos de aula prontos para serem copiados. No fim do período inicial de capacitação, o professor deverá ser capaz de desenvolver suas próprias estratégias e planos de inclusão da tecnologia em sua disciplina. A capacitação será bem-sucedida quando conseguir conscientizá-los de que o papel da tecnologia é auxiliar sua prática pedagógica, não torná-la obsoleta; e que não deve ser um ponto de conflito ou rivalidade com os alunos, mas pode se tornar uma ferramenta importante para a integração entre duas gerações.

6. Implantação

A implantação da tecnologia deve ocorrer de forma gradativa. Uma das alternativas mais viáveis é começar com apenas algumas turmas, criando salas-modelo, ou restringir a implantação a algumas disciplinas específicas, contando com o apoio de professores que tenham mais afinidade com a tecnologia. Esse modelo experimental é flexível e apresenta mais chances de sucesso, pois permite avaliar a execução do projeto e adaptar as estratégias de forma local, sem causar grandes impactos no ambiente escolar. A implantação em apenas algumas disciplinas permitirá a escolha de professores que desempenharão o papel de embaixadores da tecnologia, cujo exemplo inspire colegas e alunos. Essa alternativa contribuirá para que os professores resistentes tenham mais tempo para observar a aplicação prática dos conteúdos vistos durante a capacitação em sua unidade de ensino.

7. Avaliação

A avaliação é a bússola do projeto. Ela deve estar presente em todas as etapas para garantir que as estratégias adotadas possam guiá-lo corretamente. Não existe um único modelo de avaliação. Conversas informais com professores e alunos podem ser considerados dados relevantes para avaliar, por exemplo, o nível de aceitação do projeto ou de adequação às expectativas pessoais. O que determinará o grau de complexidade e formalidade da avaliação será a necessidade. Apesar de certa discricionariedade da forma, é necessário estabelecer áreas e indicadores específicos para avaliar se a tecnologia utilizada é relevante ao aprendizado. O Programa Informações para o Desenvolvimento (infoDev), iniciativa do Banco Mundial, sugere avaliar o impacto da tecnologia sobre o ambiente escolar a partir da divisão de três áreas: (a) resultados dos alunos – analisar se houve melhor rendimento nas disciplinas escolares ou desenvolvimento de novas competências; (b) resultados dos professores – desenvolvimento de habilidades tecnológicas e de novas abordagens pedagógicas; e (c) resultados diversos, como o aumento da capacidade de inovação na escola e mais acesso dos membros da comunidade à educação e à alfabetização digital.

 

 

 

 

Referências
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Fonte: Revista CPB Educacional / 1º semestre de 2015